Olhando um barco

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Todo o céu recordava um nelumbo poeirado

De pólen de ouro; e a lua, uma rosa nevada...

Estávamos na praia. O mar, iluminado,

Deixava ver, ao longe, uma sombra velada.

Era o vulto de um barco há tempo naufragado,

De um barco que, na fúria horrível da lestada,

Fora contra o pontal bruscamente atirado,

Sem uma vela branca, alvíssima e tufada.

Tremeste ao vê-lo; e à flor dessa boca tiveste

Uma interrogação, porque afinal soubeste

As vezes que esse barco, alçando as grandes velas,

Sobre vagas de azeite ou sobre um mar fremente,

Navegara bem como a alma de tanta gente

Navega, quando sonha, em busca das estrelas.