Olhando um barco
Todo o céu recordava um nelumbo poeirado
De pólen de ouro; e a lua, uma rosa nevada...
Estávamos na praia. O mar, iluminado,
Deixava ver, ao longe, uma sombra velada.
Era o vulto de um barco há tempo naufragado,
De um barco que, na fúria horrível da lestada,
Fora contra o pontal bruscamente atirado,
Sem uma vela branca, alvíssima e tufada.
Tremeste ao vê-lo; e à flor dessa boca tiveste
Uma interrogação, porque afinal soubeste
As vezes que esse barco, alçando as grandes velas,
Sobre vagas de azeite ou sobre um mar fremente,
Navegara bem como a alma de tanta gente
Navega, quando sonha, em busca das estrelas.