OS AMANTES, SÁTIRA OFERECIDA AO MARQUÊS DE ANGEJA D. JOSÉ DE NORONHA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Amor, é falso o que dizes;

Teu bom rosto é contrafeito;

Tenta novos infelizes;

Que eu ainda trago no peito

Mui frescas as cicatrizes:

O teu mel é mel azedo;

Não creio em teu gasalhado,

Mostras-me em vão rosto ledo;

Já estou muito escaldado,

Já d’águas frias hei medo:

Teus prêmios são pranto e dor;

Choro os mal gastados anos.

Em que servi tal senhor;

Mas tirei dos teus enganos

O sair bom pregador:

Fartei-te assas a vontade;

Em vãos suspiros, e em queixas

Me levaste a mocidade;

E nem ao menos me deixas

Os restos da curta idade?

És como os cães esfaimados,

Que, comendo os troncos quentes,

Por destro negro esfolados,

Levam nos ávidos dentes

Os ossos ensanguentados?

Bem vejo aljava dourada

Os ombros nus adornar-te;

Amigo, muda de estrada;

Põe a mira em outra parte,

Que daqui não tiras nada:

Busca algum fofo morgado,

Que solto já dos tutores,

Ao domingo penteado,

Vai dizendo a toa amores

Pelas pias encostado:

Que em sisuda casa honrada,

De papeis nunca avarento.

Dá com a mão refalseada

Escritos de casamento,

Ora à filha, ora à criada:

Genealógico comprado

Lhe concede, a peso d’ouro,

Em castelo imaginado.

Cabeça de fusco mouro.

Sobre escudo golpeado:

Arvores de geração

Em pergaminho enrolado.

Provas inegáveis são;

É um ramo desgraçado

De antigos reis de Aragão:

Dando ao mochila o lazão,

De Filis a escada emboca,

Sempre em ar de proteção;

Alvo palito na boca,

Branda varinha na mão:

Zomba dos falsos brasões,

Que não são no berço achados;

E diz à moça as razões

De ter no feliz bordados

Dois cães, e quinze leões;

As histórias lhe declara

D’aquelas guerras felizes;

E mostra, com mão avara,

Os ossos de dez narizes,

Que seu quinto avô cortara:

Aturde a moça boçal

Com cem quintas, cem comendas;

E armando um mapa geral

Das suas imensas rendas,

Vai-se sem lhe dar real:

Mas se a teus farpões dourados

Não achas digno consumo,

E os julgas mal empregados

Nestas cabeças de fumo,

Nestes peitos altanados,

Busca algum novel basbaque,

Que por pobre não saía,

Mas já mete o bairro a saque,

Depois que engenhosa tia

Lhe armou de uma saia um fraque:

Que gravezinho namora

Com brando e risonho aspeito,

Ponta de lenço de fora,

Molho de flores no peito,

Prenda de certa senhora:

Que um trapo a seu jeito ordena,

Temendo o pó das calçadas;

E antes de entrar na novena,

Com cuspo, pelas escadas,

Vai dando aos sapatos crena:

De gelo as pedras cobertas.

Como ás vezes me fizeste,

Alta noite, e a horas certas,

Quando o rígido nordeste

Deixou as ruas desertas;

Ouça duros assobios,

Precursores de alto insulto;

Retalhem-n’o ventos frios;

Ladrem ao postado vulto

Cem nocturnos cães vadios:

De paisanos salteado.

Ronda sem fé e sem lei.

De espadas velhas cercado.

E ao som da parte de el-rei,

Por forca desembuçado.

Membrudo cabo vermelho

O apalpe ante os mais senhores;

Acha uma escova e um espelho,

Dezoito escritos de amores,

E um sujo lencinho velho:

Firam teus acesos raios

Também na gentalha vil,

De crestados peitos baios,

Que começando em barril,

Vão por aumento a lacaios:

Busca algum que da cocheira,

Quando o patrão não sai fora,

Com os olhos na trapeira,

Limpando a sege, namora

Desgrenhada cozinheira:

Que de noite à sua porta.

Com famosos tangedores.

Que o Talaveiras conforta,

Lhe manda ternos amores

Sobre as asas da Comporta:

A quem a suja donzela.

Por almoço do costume,

Manda em sórdida tigela

O primitivo chorume

Da desflorada panela:

E se te não satisfazes

Com tanta conquista brava.

Que n’esta canalha fazes,

E ainda a funesta aljava

Pejada de setas trazes;

Não tens velhas presumidas.

Que em fim de mês fingem dores,

Só ás moças concedidas,

E tem de compradas cores

As roxas faces tingidas?

Cuja boca pestilente,

Ante um espelho ensaiada,

Torcendo-se destramente,

Aprende a abrir a risada

Por onde ainda resta um dente?

Que há sessenta anos donzelas,

(Caso raras vezes visto)

Tem titules de capelas,

Com um habito de Cristo

Para quem casar com elas?

Busca alguma de bom caco,

Que pela fenda da saia.

Marinhando o braço fraco,

Fisga o lenço de cambraia,

Afastando o de tabaco:

Que em festival sociedade

Até o rapé reprova,

Chamando-lhe porquidade;

E vai fartar-se na alcova

De simonte e de cidade:

Amor, faze estas em postas;

Vai-lhe das lágrimas rindo,

Já que de lágrimas gostas;

E não andes perseguindo

A quem te virou as costas:

Porém se da plebe escura

Em pouco o triunfo prezas,

E queres fina ternura,

Extremos, delicadezas.

Os freiráticos procura:

Gentes de mais alta esteira;

Ternos, finos corações,

Que em fechada papeleira

Vão guardando em batalhões

As cartas da sua freira:

Em chegando a condutora,

Que os sacrilégios ateia,

Um destes de gosto chora.

Lambe com respeito a obreia,

Por ter cuspo da senhora:

Posto na insípida grade.

Em almíscar perfumado,

Todo amor, todo saudade.

Comendo em doce babado.

Os sobejos de algum frade:

Ao sublime estilo guinda

Sua discrição notória;

A que logo a freira linda,

Revolvendo na memória

Os dous livros de Florinda,

Responde: “Os conceitos sigam

Os holocaustos do altar;

Pois são, e as chamas o digam.

Pedir, quem pôde mandar,

Preceitos que mais obrigam. “

Entretanto um chantre velho,

A quem a rodeira engoda,

E que em fechando o Evangelho,

Vai meter dentro da roda

O seu cachaço vermelho;

Freiratico por fadário,

Tão guloso, como amante,

Condessinhas pelo armário,

E sobre a deserta estante

Manjar branco, e o breviário;

Que em podre filosofia

Sectário da antiga lei,

Os Universais sabia,

E armado do a parte rei,

Tudo a eito distinguia;

Arranca oleoso escarro;

Diz à rodeira um conceito

D’aqueles, que já tem sarro;

Mete os óculos no peito,

Trono de amor, e catarro.

Pois já que estes peitos vão

Franca entrada oferecer-te,

Amor carrega-lhe a mão;

Aprendam a conhecer-te,

Mas paguem caro a lição:

Mete num cárcere a dama;

Do bom chantre os calcanhares

Vão curtir gota na cama;

E o secular cruze os mares,

Que foi descobrir o Gama;

E se queres empregar

As tuas setas de prova,

Quando alva lua raiar,

Vai sobre a Ribeira Nova

As asas equilibrar:

Brancos vestidos tomados,

Descobrindo as saias altas;

Entre as nuvens os toucados;

E com esbeltos paraltas

Os braços entrelaçados;

Verás ser aceito logo

Teu riso enganoso e brando;

Não esperam por teu rogo;

E em tu do alto assoprando,

Verás chamejar o fogo:

Que alvos dedos delicados

A furto se vão beijando,

Enquanto os pães descuidados

A loja nova admirando

Pararam embasbacados!

Verás sisudo estrangeiro

Contando grossos tostões

Ao refinado brejeiro

Correio de corações,

Que se compram por dinheiro:

Verás moça rebuçada,

Na cabeça lenço sujo.

Rota capa sobraçada,

Recebendo do marujo

Um copo de limonada:

E enquanto escuto os gemidos,

Que arrancas de tantos seios,

Deixa que em montes erguidos

Veja os naufrágios alheios,

Enxugando os meus vestidos:

Se até nos teus estimados

Hervadas setas se embebem;

Se do teu riso enganados

Com bocas sedentas bebem

Veneno em vasos dourados:

Vão pé, ante-pé guiados

Por peitada cozinheira;

Mas vendo os pães levantados, ’

Dentro de enrolada esteira

Ficam num canto emboscados:

Quando alta noite sussurra

Rijo sibilante vento,

Que as grossas portas empurra,

E acorda o velho avarento

Com os cuidados na burra;

Salta da cama ligeiro,

Corre portas e janelas,

Registando o quarto inteiro,

Em ceroulas e chinelas,

Com pistola e candieiro:

Que tremor de coração,

Que semblantes enfiados

Os amantes não lerão?

Que c’os eólios levantados

Ouvindo o rumor estão!

Da janela debruçada

Desenvolve degraus falsos

Pálida dama assustada;

Os mimosos pés descalços,

A madeixa ao vento dada.

Pois se estes teus escolhidos,

Por cabedais, por figura,

Das Nizes favorecidos.

Maldizem sua ventura,

E descem arrependidos;

Como hei de eu crer-te, que apenas

Vi de longe tranças de ouro?

Debalde outro engano ordenas

A quem de teu vão tesouro

Nunca teve mais (pie penas:

De teu rol meu nome risca;

Em peito inda não cortado

Cevados anzóis arrisca;

Mas com peixe já sangrado

Não gastes a tua isca:

De meu pranto rociadas

Penduro as fatais cadeias,

Ao som de meus ais forjadas;

Arranco das rotas veias

Cruas setas despontadas:

Sangue inocente esparziram;

Mais à ideia me não tragas

Uns olhos, que enxutos viram

Estas desgraçadas chagas,

Que em teu serviço se abriram:

Dei-te os cuidados e os dias;

De tudo já foste dono.

Restam só melancolias;

Que glória te dá um trono

Posto sobre cinzas frias?

Teus golpes de mim que esperam?

Dá fôlego aos escravos mancos,

Que em teu carro entorpeceram;

Deixa em paz cabelos brancos,

Que entre os teus ferros nasceram.