OS DOCES GRILHÕES DO AMOR ARRASTO COM TAL VAIDADE, QUE ABORREÇO AQUELE TEMPO QUE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Eu fiz conceitos errados

De amor e seu cativeiro,

Mas já feliz prisioneiro

Beijo os seus ferros dourados;

Seus passadores farpados

Ferem, mas não causam dor,

Não é tirano, é senhor.

Que aos escravos sempre afaga,

Não pesam, não fazem chaga

Os doces grilhões de amor.

Discreto amor, e que ideias

Para prender-me buscaste!

À bela Nize rogaste

Que me lançasse as cadeias:

Fizeste com mãos alheias

A minha felicidade;

Já vaidoso a liberdade

Perco, e Nize é o motivo

Por que as prisões em que vivo

Arrasto com tal vaidade.

Mil glórias, Nize, encontrei

Depois que a amar te começo;

Eu detesto, eu aborreço

O tempo, em que não te amei,

Tempo triste, em que passei

Um contínuo contratempo;

Inda o doce passatempo

De te ver me era encoberto;

Julga pois se será certo

Que aborreço aquele tempo.

Qual caminhante esquecido,

Que vendo o caminho errado,

Quer restaurar apressado

O tempo que andou perdido,

Assim, Nize, se atrevido

Conservei livre a vontade,

Restaurarei na verdade

Com finezas incessantes

Os infelizes instantes,

Que vivi com liberdade.