OS DOCES GRILHÕES DO AMOR ARRASTO COM TAL VAIDADE, QUE ABORREÇO AQUELE TEMPO QUE...
Eu fiz conceitos errados
De amor e seu cativeiro,
Mas já feliz prisioneiro
Beijo os seus ferros dourados;
Seus passadores farpados
Ferem, mas não causam dor,
Não é tirano, é senhor.
Que aos escravos sempre afaga,
Não pesam, não fazem chaga
Os doces grilhões de amor.
Discreto amor, e que ideias
Para prender-me buscaste!
À bela Nize rogaste
Que me lançasse as cadeias:
Fizeste com mãos alheias
A minha felicidade;
Já vaidoso a liberdade
Perco, e Nize é o motivo
Por que as prisões em que vivo
Arrasto com tal vaidade.
Mil glórias, Nize, encontrei
Depois que a amar te começo;
Eu detesto, eu aborreço
O tempo, em que não te amei,
Tempo triste, em que passei
Um contínuo contratempo;
Inda o doce passatempo
De te ver me era encoberto;
Julga pois se será certo
Que aborreço aquele tempo.
Qual caminhante esquecido,
Que vendo o caminho errado,
Quer restaurar apressado
O tempo que andou perdido,
Assim, Nize, se atrevido
Conservei livre a vontade,
Restaurarei na verdade
Com finezas incessantes
Os infelizes instantes,
Que vivi com liberdade.