Os mortos

By João da Cruz e Sousa

Ao menos junto dos mortos pode a gente

Crer e esperar n’alguma suavidade:

Crer no doce consolo da saudade

E esperar do descanso eternamente.

Junto aos mortos, por certo, a fé ardente

Não perde a sua viva claridade;

Cantam as aves do céu na intimidade

Do coração o mais indiferente.

Os mortos dão-nos paz imensa à vida,

Dão a lembrança vaga, indefinida

Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.

Nas lutas vãs do tenebroso mundo

Os mortos são ainda o bem profundo

Que nos faz esquecer o horror dos vivos.