OS OLHOS QUE BEM SE QUEREM NÃO SE PODEM DISFARÇAR; A NECESSÁRIA CAUTELA MIL VEZE...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Por mais que a cautela ou medo

Faça amantes comedidos.

Sempre os olhos insofridos

Hão de entregar o segredo:

São fieis, e, ou tarde ou cedo,

D’eles a verdade esperem;

Por mais que em fingir se esmerem,

Duram pouco estes refolhos;

Pois mais são línguas do que olhos,

Os olhos que bem se querem.

Que importa em alguns instantes

Ser o amante acautelado,

Se um suspiro descuidado

Conta tudo aos circunstantes?

Finas dores penetrantes

Já sofri, sem um ai dar;

Disfarcei, sem murmurar,

De vãos amigos traições;

Mas amorosas paixões

Não se podem disfarçai’.

Uns olhos sempre criados

Em o seu ídolo verem,

Acham-se sem o saberem

Nos outros olhos pregados;

Mil segredos delicados

Por eles amor revela:

Entretanto infausta estrela.

Porque a ventura lhe impeça.

Faz que de todo lhe esqueça

A necessária cautela.

Quem tem o furto na mão

Debalde jura lealdade,

Não finge bem liberdade

Quem traz nos pés o grilhão;

Puro e fiel coração

Em vão se quer afetar,

Não pôde sempre ocular

De amor a extremosa anciã,

Esta estudada constância

Mil vezes lhe ha de faltar.