OS OLHOS QUE BEM SE QUEREM NÃO SE PODEM DISFARÇAR; A NECESSÁRIA CAUTELA MIL VEZE...
Por mais que a cautela ou medo
Faça amantes comedidos.
Sempre os olhos insofridos
Hão de entregar o segredo:
São fieis, e, ou tarde ou cedo,
D’eles a verdade esperem;
Por mais que em fingir se esmerem,
Duram pouco estes refolhos;
Pois mais são línguas do que olhos,
Os olhos que bem se querem.
Que importa em alguns instantes
Ser o amante acautelado,
Se um suspiro descuidado
Conta tudo aos circunstantes?
Finas dores penetrantes
Já sofri, sem um ai dar;
Disfarcei, sem murmurar,
De vãos amigos traições;
Mas amorosas paixões
Não se podem disfarçai’.
Uns olhos sempre criados
Em o seu ídolo verem,
Acham-se sem o saberem
Nos outros olhos pregados;
Mil segredos delicados
Por eles amor revela:
Entretanto infausta estrela.
Porque a ventura lhe impeça.
Faz que de todo lhe esqueça
A necessária cautela.
Quem tem o furto na mão
Debalde jura lealdade,
Não finge bem liberdade
Quem traz nos pés o grilhão;
Puro e fiel coração
Em vão se quer afetar,
Não pôde sempre ocular
De amor a extremosa anciã,
Esta estudada constância
Mil vezes lhe ha de faltar.