OS PATRIOTAS
De nossos politicões,
Patriotas de empreitada,
Gigantes feitos de anões,
Classe bem-aventurada,
Aqui debuxo as feições.
É meu defeito, não nego;
Se a fazer versos me atiro,
E na pena rude pego,
À direita e à esquerda firo,
Dou bordoada de cego.
Tenha santa paciência
Qualquer nobre senhoria,
Ou qualquer nobre excelência;
Sátira não injuria,
Se não tem condescendência,
Se do povo chego a ouvir
Tribuno inculcar-se amigo,
E ao mau governo agredir,
Logo resmungo comigo
— O que ele quer, é subir! —
Charlatão que não conhece
Um princípio, se aventura
A falar no que parece
Ciência intrincada, escura,
Que assaz de estudo carece!
Um que não saiu da mata,
E que é péssimo roceiro,
Estadistas desbarata:
É completo financeiro,
É perfeito diplomata.
Contra o governo se inflama
Para o qual hábil se pensa,
Inepto que, diz a fama,
Traz a roupa na despensa,
E o toucinho sobre a cama.
Idiota que na escola
Não soletrou B-A-Bá,
Balofos termos engrola
E à luz da imprensa dá
Os produtos da cachola.
Espanca cheio de gana
A pureza do idioma,
E a linguagem puritana
Que se respeite ele toma
Por mania muito insana.
Supõe que a pátria periga,
Que a constituição ’stá rota,
E, para que não se diga
Que não é bom patriota,
Passa a mão pela barriga.
Se houve mudança de cena,
Desce-sobe, sobe-desce,
Eis que lança mão da pena,
E defendendo aparece
O que, há pouco, ele condena.
Já do povo se esqueceu,
Só quer dar força ao poder,
E se alguém comprometeu,
A ninguém pode valer,
Quando todo o mundo é seu.
Uma fita logo vem,
Um empregozinho ganha,
E as exigências que tem
Por sua ambição tamanha,
Cumpridas, tudo vai bem!
Enche a boca de canalha
Esse quidam, que exerceu
Nobre ofício de navalha,
E hoje traz ao peito seu
A pendente maravalha!
E eu então, simplório, que
Não conheço maganões;
Qual este foi e qual é,
Digo cá com meus botões:
Quem te viu, e quem? te vê!