OS RECURSOS DA INJÚRIA
Mais um pouco de bom-senso!
Musa, basta de rimar,
Visto que negas o incenso
Das potestades no altar.
Sem justo motivo atacas
Leis, costumes de raiz
Nesta terra das patacas,
Moralizado país.
E dizes — quem tem dinheiro
Pode a salvo injuriar;
Pois o prelo interesseiro
Às injúrias dá lugar.
Quando a injúria por escrito
Ao homem probo maldiz,
Vai-se punir o delito
Na presença do juiz.
Tu me asseveras, não erro,
Que, a favor do detrator,
Faltando o testa-de-ferro,
Há o Poder Moderador.
Impelido pela fome
Aquele aceita o real
Este deseja que some
Nova parcela o hospital.
Há caridade nas vistas,
É puríssima a intenção,
Mas severos moralistas
Impõem certa restrição.
Prestar ao enfermo abrigo,
Curar-lhe as chagas e a dor
É bom proceder do amigo
Da lei de Deus por amor.
Que nunca porém se faça
O sempre danoso mal,
Ainda que daí nasça
Um bem, — ordena a moral.