OS RECURSOS DA INJÚRIA

By José Joaquim Correia de Almeida

Mais um pouco de bom-senso!

Musa, basta de rimar,

Visto que negas o incenso

Das potestades no altar.

Sem justo motivo atacas

Leis, costumes de raiz

Nesta terra das patacas,

Moralizado país.

E dizes — quem tem dinheiro

Pode a salvo injuriar;

Pois o prelo interesseiro

Às injúrias dá lugar.

Quando a injúria por escrito

Ao homem probo maldiz,

Vai-se punir o delito

Na presença do juiz.

Tu me asseveras, não erro,

Que, a favor do detrator,

Faltando o testa-de-ferro,

Há o Poder Moderador.

Impelido pela fome

Aquele aceita o real

Este deseja que some

Nova parcela o hospital.

Há caridade nas vistas,

É puríssima a intenção,

Mas severos moralistas

Impõem certa restrição.

Prestar ao enfermo abrigo,

Curar-lhe as chagas e a dor

É bom proceder do amigo

Da lei de Deus por amor.

Que nunca porém se faça

O sempre danoso mal,

Ainda que daí nasça

Um bem, — ordena a moral.