Os risonhos

By João da Cruz e Sousa

Pastores e camponesas

De rudes almas esquivas

Passam entre as candidezas

Das estrelas fugitivas.

Parece que nada os punge,

Nada os punge e sobressalta.

A lua que os campos unge

No firmamento vai alta.

E eles passam sob a lua,

De queixas desafogados,

A cabeça livre e nua,

Na florescência dos prados.

Seres meigos e singelos,

Mulheres de lindo rosto,

Lábios cálidos e belos,

Do quente sabor do mosto.

Pastores de tez morena,

Queimados ao sol adusto:

Claridade bem serena

No fundo do olhar bem justo.

Neles tudo é riso e festa,

Neles tudo é festa e riso,

Frescuras brandas de giesta

E graças de Paraíso.

Simples, toscas e felizes,

Sem ter um laivo de mágoa:

Almas das verdes raízes,

Limpidez de gota d’água.

Neles tudo é paz de aldeia

E ri com os risos mais frescos...

O céu inteiro gorjeia

Idílios madrigalescos.

Seduzido por miragens

Caminha o bando risonho

Dessas virentes paragens,

Levado na asa de um sonho.

Nele tudo ri sem ânsia

E com doçura secreta;

E como uma nova infância

Cantantemente irrequieta.

Encantos de mocidade,

Saúde, fulgor, vigores,

Dão-lhe a doce suavidade

Maravilhosa das flores.

Os corações, florescentes,

Vão nesses peitos cantando

E rindo em festins ardentes

E dentre os risos sonhando.

Ri na boca, ri nos olhos,

Nas faces o bando, rindo

O bom riso sem abrolhos,

Que lembra um campo florindo.

Rindo em sonoras risadas,

Rindo em frêmitos vivazes,

Rindo em risos de alvoradas,

Rindo em risos de lilases.

Os campos entontecidos

Nos vinhos da lua clara

Ficam bizarros, garridos,

De vitalidade rara.

As águas claras das fontes

Vibram lânguidas sonatas

E as nuvens vestem os montes

Das visões mais timoratas.

Na copa dos arvoredos,

Nas orvalhadas verduras

Há sonâmbulos segredos

E murmuradas ternuras.

E o bando festivo passa

Rindo, alegre, casto e suave,

Iluminado de graça,

Mais leve que um voo de ave.

Podeis rir, almas ditosas,

Almas novas como frutos

De vinhas miraculosas

De pomares impolutos.

Podeis rir, almas eleitas

Que os anjos percebem tanto

Lá das esferas perfeitas

Nas harmonias do Encanto.

Almas brancas, Páscoas leves,

Alvos pães de áureos altares,

De mais candidez que as neves

E a madrugada nos mares.

Almas sem sombras ferozes

Nem espasmos delirantes.

Eco das bíblicas vozes,

Caminhos reverdejantes.

O vosso riso é bendito,

Os vossos sonhos são castos,

O estrelamento infinito

De mundos claros e vastos.

Podeis rir, peitos ufanos,

Belas almas feiticeiras,

Vós tendes nos risos lhanos

O trigo das vossas eiras.

A vossa vida é planície,

Não tem declives funestos:

Sois torres que a superfície

Assenta nos dons modestos.

A vossa vida é bem rasa,

Preso à terra o vosso esforço;

Nem mesmo um frêmito de asa

Vos faz agitar o dorso...

Sois como plantas vencidas

Conquistadas pela terra,

Dando à terra muitas vidas

E tudo que a Vida encerra.

É do vosso sangue moço

Que na terra se derrama,

Que sobe o rubro alvoroço

De ocasos de sóis em chama.

Manchas, ao certo, não tendes

E nem trágico flagício,

Almas isentas de duendes,

Lavadas no Sacrifício.

Das pedras, nos vossos ombros,

A rigidez não carrega.

Em jardins tornam-se escombros

E em luz a crença que é cega.

Desses perfis adoráveis,

Na curva casta dos flancos

Brotam viços inefáveis

Dos florescimentos brancos.

Podeis rir! ó benfazeja

Bondade de nobre essência,

Deus vos chama e vos deseja

Na estrelada florescência.

Um anjo vos acompanha

Nessa estrada matutina

E convosco a ideal montanha

Sobe da graça divina.

O flagelo deste mundo,

Nesses corações não pesa.

Enquanto o Horror vai profundo

Vossa alma tranquila reza.

Contritos e de mãos postas,

Humildemente de joelhos,

O Demônio, pelas costas,

Não vem vos dar maus conselhos.

Vós sois as sagradas reses

Votadas ao azul Sacrário.

Deus vos olha muitas vezes

Com o seu olhar visionário.

Mas quando, como as estrelas,

Adormecerdes um dia,

Voando mais perto a vê-las

Na Paragem fugidia.

Quando na excelsa Bonança

Afinal adormecerdes,

Nos olhos toda a esperança

Levando dos prados verdes.

Quando lá fordes, subindo

Para as límpidas Alturas,

Profundamente dormindo,

Em busca das almas puras.

Praza aos céus que nos caminhos

Da eterna Glória, das palmas,

Mais brancas que os claros linhos

Possais encontrar as almas!