OU ISSO!

By José Joaquim Correia de Almeida

Liso inventor anuncia

em repetidos cartazes

um segredo que traria

resultados eficazes.

Pela sincera linguagem

tu bem convencido julgas

que são de imensa vantagem

os tais pós de matar pulgas.

Há chusmas de compradores,

pois é o segredo armadilha

que apanha grossos valores,

qual nova salsaparrilha.

O chale, a saia, a camisa,

a colcha, o lençol, a esteira,

em suma, tudo precisa

da mortífera poeira.

Nenhum trabalho se poupa,

e o mundo inteiro se ocupa

em ver se extingue na roupa

a importuna sangue-chupa.

Mas o bichinho teimoso

vai mordendo e continua

na antiga posse, e no gozo

da pele vestida ou nua.

E por mais que Ana Delfina

o pescoço e os braço s cubra,

deixa ver na cútis fina

muita e muita pinta rubra.

Se presumível já fora

que sempre estaria em voga,

a invenção destruidora

parece que deu em droga!

Comprador mais exigente

ao droguista participa

que, apesar dos pós, a gente

das pulgas não se emancipa.

Então este mais que prestes

as circunstâncias indaga:

— de que modo vos houvestes

para dar cabo da praga?

— Derramei o pó comprado

sobre o corpo, cama e lixo;

nenhum lugar foi poupado

onde resida tal bicho.

— Pois não é como se julga,

esse o melhor dos caminhos!

Apanhai com jeito a pulga,

pulverizai-lhe os olhinhos.

— Se posso mais facilmente

com este dedo esmagá-la...

— Não serei eu quem sustente

que a pulga assim não estala!