OUTRA MULATA, DE QUEM O POETA FALLA ENTRE AS BORRACHAS DO JUIZADO DE NOSSA SENHO...

By Gregório de Matos Guerra

Marta: mandai-me um perdão

em qualquer continha benta

tocada na vossa venta

passada por vossa mão:

porque ainda que a contrição

que tenho, de que entre nós

haja ofensa tão atroz,

é obra, que tanto monta,

que me hei de tocar a conta,

ou me hei de ir tocar em vós.

Quero, que me perdoeis,

e para me perdoar,

sendo ara do meu altar,

nela é força, me toqueis:

assim me indulgenciareis

por esta obra meritória,

que ofreço à vossa memória,

pela qual no foro externo

podeis livrar-me do inferno,

e levar-me à vossa glória.

Maldita seja a caraça,

que me meteu na cabeça;

que éreis vós, Marta, má peça,

para ir perder vossa graça:

e agora que a vista embaça

em tão alta galhardia,

praguejarei noite, e dia

a patifa, que me ordena,

que pegando então na pena

vos metesse na folia.

Vós sois a gala das Pardas,

e como sol das Mulatas

sombra fazeis às Sapatas,

que presumem de galhardas:

formosuras são bastardas

todas as mais formosuras,

mas eu tomara às escuras

topar vosso fraldelim,

porque novo para mim

assentara-lhe as costuras.