OUTRO AGRADECIMENTO AOS PRATOS QUE ABRIRAM O APETITE
Senhor, assim que eu largar
A baetal fatiota minha,
Vou beijar as pias lájeas
Da vossa farta cozinha:
Não foi atento espanhol,
Receitando amarga quina,
Quem venceu meu mal co’as armas
Da falível medicina;
Vós sabeis traçar receitas
Mais gratas, e mais felizes:
Curaram-me opostos males
Bem aplicadas perdizes;
Umas o apetite abriram,
Outras sossego lhe dão;
Sararam as duas chagas
Co pelo do mesmo cão.
Dizem línguas inimigas,
Que esta doença é fictícia;
E os práticos do meu pulso
A capitulam malícia,
Que em meu capote abafadas
Estas goelas felizes,
Em vez de cozerem linfas,
Estão armando ás perdizes.
Senhor, não devo atalhar
Este conjurado assedio;
Porque era provar doença,
Ingratidão ao remédio;
Só digo, que não ganhais,
Dando ouvido ás vozes suas;
Aqui dais-me uma perdiz,
E se lá vou, tiro duas.