OUVI, Ó SENHORA, OUVI, OS SUSPIROS DE UMA VOZ, QUE QUANDO POR VÓS SUSPIRA, ASPIR...
Chegou finalmente a hora
De saberdes quem vos ama:
Rebente esta antiga chama,
Que ardeu oculta atégora.
Amar calando, senhora,
Assaz o fiz atéqui:
As anciãs, que padeci,
Sejam finalmente expostas...
Ah! não me volteis as costas:
Ouvi, ó senhora, ouvi.
Perdei uma vez o horror
A ouvir ternos gemidos;
Nunca feriram ouvidos
Brandas palavras de amor.
Que hora, e que sitio melhor,
Do que este em que estamos sós?
Que culpa, que crime atroz
Temeis que ante vós farão
As queixas de um coração,
Os suspiros de uma voz?
Meu coração vos adora;
Sem saber o conquistais:
Estas anciãs, estes ais
São obra vossa, ó senhora.
Em segredo amou tégora;
De amor vive; amor respira;
E se vós, depondo a ira,
Lhe prometeis compaixão,
Que melhor ocasião.
Que quando por vós suspira?
N’ele, senhora, não posso
Nutrir estranha paixão:
Enfim este coração
Foi feito para ser vosso:
Para encher-se de alvoroço
Basta ouvir a vossa voz:
Passa indiferente e veloz
Por mil belezas, que admira.
Nada o enche, a nada aspira,
Aspira somente a vós.