OUVI, Ó SENHORA, OUVI, OS SUSPIROS DE UMA VOZ, QUE QUANDO POR VÓS SUSPIRA, ASPIR...

By Nicolau Tolentino de Almeida

Chegou finalmente a hora

De saberdes quem vos ama:

Rebente esta antiga chama,

Que ardeu oculta atégora.

Amar calando, senhora,

Assaz o fiz atéqui:

As anciãs, que padeci,

Sejam finalmente expostas...

Ah! não me volteis as costas:

Ouvi, ó senhora, ouvi.

Perdei uma vez o horror

A ouvir ternos gemidos;

Nunca feriram ouvidos

Brandas palavras de amor.

Que hora, e que sitio melhor,

Do que este em que estamos sós?

Que culpa, que crime atroz

Temeis que ante vós farão

As queixas de um coração,

Os suspiros de uma voz?

Meu coração vos adora;

Sem saber o conquistais:

Estas anciãs, estes ais

São obra vossa, ó senhora.

Em segredo amou tégora;

De amor vive; amor respira;

E se vós, depondo a ira,

Lhe prometeis compaixão,

Que melhor ocasião.

Que quando por vós suspira?

N’ele, senhora, não posso

Nutrir estranha paixão:

Enfim este coração

Foi feito para ser vosso:

Para encher-se de alvoroço

Basta ouvir a vossa voz:

Passa indiferente e veloz

Por mil belezas, que admira.

Nada o enche, a nada aspira,

Aspira somente a vós.