OUVINDO O POETA CANTAR NO MESMO CONVENTO A DONA MARIA FREYRA DE VEO BRANCO A QUE...
Clara sim, mas breve esfera
ostenta em purpúreas horas
as mais breves três auroras,
que undoso o Tejo venera:
tantos raios reverbera
cada qual, quando amanhece,
nas almas, a que aparece,
que não foi muito esta vez,
que sendo as auroras três,
pela tarde amanhecesse.
Clara na brancura rara,
e de candidezes rica,
com ser Freira Dominica,
a julguei por Freira Clara:
tanta flor à flor da cara
dada em tão várias maneiras,
que entre as cinzas derradeiras
jurou certa Mariposa
as mais por Freiras da Rosa,
Clara por rosa das Freiras.
Branca, se por vários modos
airosa o arco conspira,
inda que a todos atira,
é Branca o branco de todos:
mas deixando outros apodos
dignos de tanto esplendor,
vibrando o arco em rigor
parece em traje fingido
Vênus, que enfim a Cupido
atirar setas de amor.
Maria a imitação
por seu capricho escolheu
ser Freira branca no véu,
já que as mais no nome o são:
e em tão cândida união
co’as duas Irmãs se enlaça,
que jurada então por Graça,
chove-lhe a graça em maneira,
que sendo a Graça terceira,
não é terceira na graça.
Entoando logo um solo
em consonância jucunda
prima, terceira, e segunda
a lira formam de Apolo:
vaguei um, e outro Pólo,
mas foi diligência vã,
porque a cara mais louçã
cotejando-a nas brancuras
co’as três Irmãs formosuras,
não vi formosura irmã.
Vendo tão novos primores
para um retrato adorar-vos,
trataram de retratar-vos
estes meus versos pintores:
e metendo já de cores
essas vossas luzes puras
em três métricas pinturas,
ficam de muito emendados
meus versos os retratados,
e não vossas formosuras.