OUVINDO O POETA CANTAR NO MESMO CONVENTO A DONA MARIA FREYRA DE VEO BRANCO A QUE...

By Gregório de Matos Guerra

Clara sim, mas breve esfera

ostenta em purpúreas horas

as mais breves três auroras,

que undoso o Tejo venera:

tantos raios reverbera

cada qual, quando amanhece,

nas almas, a que aparece,

que não foi muito esta vez,

que sendo as auroras três,

pela tarde amanhecesse.

Clara na brancura rara,

e de candidezes rica,

com ser Freira Dominica,

a julguei por Freira Clara:

tanta flor à flor da cara

dada em tão várias maneiras,

que entre as cinzas derradeiras

jurou certa Mariposa

as mais por Freiras da Rosa,

Clara por rosa das Freiras.

Branca, se por vários modos

airosa o arco conspira,

inda que a todos atira,

é Branca o branco de todos:

mas deixando outros apodos

dignos de tanto esplendor,

vibrando o arco em rigor

parece em traje fingido

Vênus, que enfim a Cupido

atirar setas de amor.

Maria a imitação

por seu capricho escolheu

ser Freira branca no véu,

já que as mais no nome o são:

e em tão cândida união

co’as duas Irmãs se enlaça,

que jurada então por Graça,

chove-lhe a graça em maneira,

que sendo a Graça terceira,

não é terceira na graça.

Entoando logo um solo

em consonância jucunda

prima, terceira, e segunda

a lira formam de Apolo:

vaguei um, e outro Pólo,

mas foi diligência vã,

porque a cara mais louçã

cotejando-a nas brancuras

co’as três Irmãs formosuras,

não vi formosura irmã.

Vendo tão novos primores

para um retrato adorar-vos,

trataram de retratar-vos

estes meus versos pintores:

e metendo já de cores

essas vossas luzes puras

em três métricas pinturas,

ficam de muito emendados

meus versos os retratados,

e não vossas formosuras.