Páginas de Boêmia – II Ontem e hoje
Vai-se-me dia a dia arrefecendo
A flama intensa dos desejos fortes:
Sou outro inteiramente. Não te importes,
Mulher! eu já não vivo padecendo...
Aos quinze anos fui medroso e triste,
Como as donzelas mórbidas, histéricas;
E passavam por mim sombras homéricas
Nas noites claras que a cismar me viste...
Depois, amei as músicas nervosas,
Cheias de sons, de frémitos, de ardores...
E a maciez das pétalas das rosas,
E a penugem sutil dos beija-flores!...
Mais tarde, uma visão plena de encantos
Mergulhou-me em fatal melancolia:
Era uma meretriz; e eu quis com prantos
Regar a flor já seca pela orgia!...
Sonhei então uma existência calma,
Boiando à flor de um lago de quimeras;
Sonâmbulo que fui! eu tinha a alma
Do modesto cantor das Primaveras!...
Hoje... sombrio e só, magro e doente,
A vagar n’este abismo de miséria,
— Discip’lo de Voltaire — frio e descrente,
Penso apenas na força e na matéria.