Páginas de Boêmia – IX Dançando
Tu sabes que o barão se baba pelas filhas,
Aqueles divinais arcanjos das quadrilhas!
E creio que também já deves ter notado
Que a mais moça das três descamba p’ra o meu lado...
Sim, para que há de estar a gente com histórias,
Quando essas cousas são... públicas e notórias?
Eu cá não sei guardar segredos, salvo se,
Se um marido burguês... ora! et cœtera, e...
Entendes-me, não é?... Pois bem; como dizia,
Ando fazendo a corte à flor da fidalguia.
Sábado, vinte e dois, recordas-te? — o visconde
Fez anos — e o palácio abriu a demi-monde!
Foi um baile de estrondo!... Oh! nada ali faltava:
Doces a três por dois... champagne, que enjoava!
Além de um esquadrão de moças e um piquete
De velhas — cada qual mais rica e mais coquete.
O barão quis me ouvir falar, e eu, é logico,
Bati palmas e fiz de pronto um bestialógico...
Choveram ovações!... “Que moço inteligente!
Dizia a baronesa ao vice-presidente.
— “Escreve folhetins, faz dramas e sonetos.” —
“Pois não! eu tenho cinco ou seis dos seus folhetos.”
E os lábios virginais sorriam-se p’ra mim,
Ternos como um Chénier, doces como um pudim!
D. Lúcia, depois, com gesto soberano,
Passando os dedos sobre as teclas do piano,
Despertou sons do céu! dolentes e suaves,
Como um verso do Castro ou como um trino d’aves.
Quando a orquestra espalhava os sons d’uma havaneira
Eu voava com ela... a doce feiticeira!
Aí, aproveitando esse propício ensejo,
Fui dizer-lhe um segredo, e zás... furtei-lhe um beijo!
Lúcia ficou vermelha, assim como no galho
A flor, se a beija o sol e sorve-lhe o orvalho...
Mas não zangou-se, não; sorrindo, envergonhada,
Chamou-me de ladrão, baixinho; e, delicada,
Disse: “Se o não quer ser, dê-me depressa pois
O beijo que furtou-me.” E foi... eu dei-lhe dois!...