Páginas de Boêmia – V A viscondessa
Assim que o trem partiu, senhora viscondessa,
Notou que fui postar-me à porta do wagon?
Pois bem! é que eu sentia o inferno na cabeça
E em vão dizia: além! vamos ao ermo, alons!
É que eu sentia em mim a falta da saúde
E da conservação o pronunciado instinto
Ergue-se dentro em nós d’uma maneira rude,
Tentando reviver todo o vigor extinto.
Sei que em tempos de treva, em tempos d’ignorância,
O doente invocava — o sobrenatural...
E o sacerdote, ao fim da mais teimosa instância,
Curava o corpo enfermo e a afecção moral.
Pitágoras, Platão, Empédocles e Tales,
Constituíram mais tarde a base da razão:
Começou a ciência a debelar os males,
Cedendo à medicina a divinal missão.
Seiscentos anos já antes de Jesus-Cristo,
Herófilo chegou a defini-la assim:
“O estado anormal do corpo, a causa d’isto.
Altera-lhe a saúde e transforma-o por fim.”
Nessa definição sucinta a ideia é lógica
Da história natural que aí se denuncia:
Ha uma causa anatômica, uma ação patológica,
Terapêutica, higiene — e fisiologia.
Sabe que sobre o corpo influi a atmosfera,
Esteja rarefeita ou mesmo condensada,
A Corte, úmida o quente, o nosso estado altera
E eu sentia a saúde aos poucos transtornada.
Metemo-nos os dois no trem das quatro e meia
E fomos para fora, afim de tomar ares:
Sentou-se à nossa esquerda uma alta inglesa feia,
Com os olhos da cor do pano dos bilhares.
Atrás, um português mostrava uns a pedidos
Do Jornal do Comércio a uns alemães vermelhos:
Enquanto uma francesa os dedos mui compridos
Passava por um cão que tinha sobre os joelhos.
Uns dandys, de pastinha e lenço cor-de-rosa,
Falavam entre si, com risos indiscretos;
Fitava-os em silêncio uma senhora idosa,
Que não largava as mãos dos pequeninos netos.
O monstro de metal movia os musc’los d’aço,
Com a viva rapidez das máquinas modernas;
E um penacho de fumo erguia-se no espaço,
Escuro como o bojo informe das cavernas.
Em pleno século XI os Belgas aplicaram
O combustível forte, o mineral precioso,
Que, dentro da fornalha apenas o queimaram,
Impregnou o ar de um cheiro betuminoso.
O silvo atroador, frenético, vibrante,
Cortava a solidão com frêmitos febris!...
Trazendo-me à lembrança os gritos de um gigante,
Ou os hinos ao sol — na taba dos tupis.
O ar do descampado, oxigenado, higiênico,
Fresco como as manhãs esplêndidas de outubro,
Varreu-me da cabeça apreensões de anêmico,
Escorvou-me os pulmões: fiquei alegre e rubro.
O ar, bem sabe, é o gás que forma a atmosfera,
E o meio constitui que tudo desenvolve;
Leva a semente à planta, a flor à primavera,
Vapores absorve e em água se dissolve.
Torricelli alcançou verificar-lhe o peso:
O barômetro atesta essa verdade ingente;
Submetem-no à pressão? — permanece em desprezo...
E é ele quem o som propaga velozmente.
O ar!... pois bem; é ele o único remédio
Que debela de todo a hipocondria atroz,
A tristeza sem causa... o indefinido tédio,
Que às vezes, sem sentir, sentimos dentro em nós.
Tive ímpetos então histéricos, nervosos,
Vontade de correr, de rir e de gritar...
Crispavam-me a epiderme uns fluidos voluptuosos,
Magnéticos bem como a luz do seu olhar.
De súbito, porém, n’um ambiente morno
O trem diminuiu de força e rapidez:
E o túnel, abafado, escuro como um forno,
Era um antro de horror, de sombras e mudez.
Foi um instante só; de novo a luz e o ar
Deram mais rapidez à marcha interrompida.
Vinha tombando a sombra... e a luz crepuscular
Trouxe-me uma tristeza imensa, indefinida.
A mudez do crepusc’lo e a paz do isolamento
Impunham um terror solene e religioso...
E ao ver vossa excelência ali, n’esse momento,
Quase a chorar de dor... sorri-me venturoso!
Chegámos à estação. Estava à nossa espera
Um pajem de libré e botas de verniz,
O mesmo que seguiu nos fins da primavera
Seu falecido esposo a Londres e Paris...
Ele, assim que nos viu, correu em direitura
Da carruagem inglesa, e rápido, veloz,
Fustigou os corcéis, altos, de cor escura,
Parando n’um instante o carro junto a nós.
Entrámos no caleche; os animais possantes,
Sorvendo a exalação das plantas orvalhadas,
Saíram a galope, altivos, ofegantes,
Soltas à viração as crinas agitadas!...
Então, vossa excelência, exausta de cansaço,
Pendendo no meu ombro a fronte escultural,
Nem via o meu olhar cair no seu regaço...
Sonâmbulo, dormente, opiado, sensual!...