Páginas de Boêmia – VI És bela
És bela — quando vais, de manhã cedo,
As florinhas regar no teu jardim;
E voltas, com a barra do vestido
Molhada, de roçar sobre o capim...
És bela — quando a sós, ante o espelho,
Contemplas o teu vulto sem rival:
E te esqueces de ti — pensando n’ele...
Com ciúmes — do próprio original!...
És bela — quando passas, ao almoço,
Co’a mão direita a xícara do tutor,
E com a esquerda apertas, às ocultas,
Os dedos enluvados — do doutor...
És bela — quando, em horas de trabalho,
Te assentas à mesinha de coser,
E cantas satisfeita e distraída
A poesia assim: Quando eu morrer...
És bela — quando, à tarde, embevecida
Contemplas triste o sol a declinar;
E co’a luz de teus olhos iluminas
As páginas de um livro de Alencar.
És bela — quando, à noite, só com ele,
À meia voz conversas no salão,
E, mal ouves os passos da madrinha,
Mudas logo de tal conversação...
És bela!... Ah! fora eu poeta lírico,
Para dizer que a luz do teu olhar
Tem mais doce fulgor do que lampírios,
— Raios do sol e ondas de luar!...
És bela — quando almoças, quando jantas,
Em toda a parte, acompanhada ou só;
Mas — ainda és mais bela quando dormes.
Ao lado do... não cores, — do totó!...