Páginas de Boêmia – VI És bela

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

És bela — quando vais, de manhã cedo,

As florinhas regar no teu jardim;

E voltas, com a barra do vestido

Molhada, de roçar sobre o capim...

És bela — quando a sós, ante o espelho,

Contemplas o teu vulto sem rival:

E te esqueces de ti — pensando n’ele...

Com ciúmes — do próprio original!...

És bela — quando passas, ao almoço,

Co’a mão direita a xícara do tutor,

E com a esquerda apertas, às ocultas,

Os dedos enluvados — do doutor...

És bela — quando, em horas de trabalho,

Te assentas à mesinha de coser,

E cantas satisfeita e distraída

A poesia assim: Quando eu morrer...

És bela — quando, à tarde, embevecida

Contemplas triste o sol a declinar;

E co’a luz de teus olhos iluminas

As páginas de um livro de Alencar.

És bela — quando, à noite, só com ele,

À meia voz conversas no salão,

E, mal ouves os passos da madrinha,

Mudas logo de tal conversação...

És bela!... Ah! fora eu poeta lírico,

Para dizer que a luz do teu olhar

Tem mais doce fulgor do que lampírios,

— Raios do sol e ondas de luar!...

És bela — quando almoças, quando jantas,

Em toda a parte, acompanhada ou só;

Mas — ainda és mais bela quando dormes.

Ao lado do... não cores, — do totó!...