Páginas de Boêmia – X À página 320...
A cena representa um boudoir sombrio,
Forrado de papel azul com frisos d’ouro
À direita um jardim, ao fundo vê-se o rio...
Entra pela janela, inquieto como um touro,
O vento, que balança o leve cortinado,
E da princesa ideal beija o cabelo louro...
Ela, sobre o divã macio, aveludado,
Reclina-se indolente... e mostra, distraída,
O pezinho chinês n’um borzeguim bordado.
O vento, que lhe arrufa a saia guarnecida
De flocos de escumilha e crivos transparentes,
Vendo-a n’essa atitude, em languidez caída,
Ergue em ondulações aquelas roupas quentes...
E no vivo cristal dos límpidos espelhos
Reproduz perfeições esculturais, trementes!...
O primo fecha o livro... Os lábios seus, vermelhos,
Febris e sensuais, — já sem saber de si, —
Da prima adormecida osculam os joelhos...
E a voar pelo azul cantava um bem-te-vi...