Páginas de Boêmia – XIX Sonho alemão

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Por dormir logo após a lauta ceia

Do gordo reverendo, que, a pedido

De uma certa cantora, dignou-se

Enviar-me um convite por escrito,

Tive um sonho alemão...

Alemão digo

Por ser assim à moda do que o Goethe

Apresenta no Fausto — esse tal Sonho

Da noite de Walpurg...

Embuçado

N’uma capa espanhola (brasileira),

De chapéu desabado e umas botas

De excelente verniz, como as que usava

Esse francês audaz que por façanhas

Elevou-se do povo à realeza,

Chegando a dividir pelos parentes,

Tronos como aos parceiros damos cartas

N’uma mesa de jogo...

Assim vestido,

Mal soou meia-noite no relógio

Da casa do vizinho, a passos lentos,

Assim como do Hernani os conjurados

Logo que principia o quarto ato,

Fui para o palacete da formosa

Neta da baronesa...

Lá chegando,

Atirei-me a seus pés!... Estava linda

A tímida criança aristocrata,

Com os negros cabelos ondeados

Soltos a flutuar pelas espáduas,

Mais alvas do que a espuma que o barbeiro

Nos põe no rosto ao nos fazer a barba!...

“Nunca estiveste assim tão feiticeira

Mulher dos meus desejos, flor cheirosa

Dos vergéis ideais do pensamento!

Fosse eu hoje um Sultão, que d’entre todas

As lânguidas, lascivas Odaliscas,

Havia do dizer ao teu ouvido:

— “És tu só, és tu só a favorita! —

Mas... se eu nem sou o último dos turcos,

Esses entes felizes, felizardos,

Que têm tantas mulheres quantas calças

Possui o teu irmão — aquele dandys!...

“Já sei que vens...

Pois não! Adivinhaste;

Venho ver-te, mais morto do que vivo,

Magro, desfigurado com olheiras,

E tudo isso por quê? — pela saudade,

Aquilo que Garret... Inda não leste

Os versos do visconde? — Pois não leias.

“E tu também não pensas muitas vezes

N’essas horas de fogo e de volúpia

Em que tremes, desmaias nos meus braços,

Sentindo o maior gosto d’esta vida,

Enquanto, desvairado e ofegante,

Eu sorvo sequioso, a longos tragos,

O licor de teus beijos — pela taça

D’esses lábios de amoras, mais vermelhos

Que o miolo das frescas melancias?...

“E nosso filho?

Pois nós temos filho?!

Não fales nunca em semelhante cousa.

Cruzes! Deus nos acuda! Pois tu queres

Ir procurar camisa de onze varas?

(Ora esta! e eu metido em calças pardas!)

Não sabes que a mulher depois do parto

Deixa de ser a Deusa decantada

Pela Musa dos líricos poetas?...

Não fales nunca n’isso!

“E nosso filho

Há de ficar na sombra, abandonado,

Sem mimos maternais, lições paternas,

Um nome — p’ra que possa erguer altivo

A fronte varonil entre os mais homens?

Não! tu não és um bárbaro...”

E, chorando,

Continuava esse sermão de lágrimas,

Que por certo escutaste muitas vezes,

Talvez de mercador fazendo ouvidos,

Quando eu, vendo que nada n’essa noite

Podia conseguir... achei prudente

Dar as costas à bela inconsolável,

Que soluçava, assim — como as crianças

Quando querem comprar algum brinquedo,

Ou sair rua fora atrás das outras.

Saí.

Até aqui — nada de novo:

Mas agora é que a cousa toma os ares

Das pavorosas lendas d’Alemanha.

Esqueceu-me dizer que isto passou-se

N’uma noite de inverno, noite inglesa;

Da cúpula do azul caía em dobras

Um denso cortinado de vapores...

E a Lua, sozinha no seu quarto,

N’uma colcha de névoas embrulhada,

De vez em quando arregalava os olhos

A ver se alguma estrela se atrevia

A botar o nariz para o planeta

Onde escrevo estes versos, que algum dia

Podem talvez ainda ser transcritos

Para os jornais do Sol ou de Saturno!

Mãos à obra. Mal tinha entrado em casa,

Quando o criado (que sou eu) curvado

Tirava as minhas botas;

Ofegante,

Trêmula, desgrenhada, esbaforida,

Investe porta a dentro a inconsolável

Neta da baronesa...

“Então, não queres

A promessa cumprir?”

“Mas que promessa?”

“Basta, tirano, basta!... Ao menos morra

Em presença do algoz a pobre vítima.”

E mal essas palavras tinha dito,

Engatilha um revólver de seis cápsulas,

Ergue os olhos ao céu, benze-se às pressas

E nos ouvidos descarrega um tiro!...

A polícia, que ouvira o estampido

A tais horas da noite, em nossa casa

Aparece de chofre (caso raro)

Como D. Carlos — o real bandido

Dos reinos espanhóis, nesse momento

Em que sai do armário (isto se entende

Com quem lê Victor Hugo, simplesmente).

“— Que quer isto dizer? —” brada raivoso

Um esguio sargento, de bigodes

A Victor Manoel:

“— Está bonito!

Matar uma mulher como quem mata

Uma pulga, um piolho, um carrapato...

Mas, inda bem que o pilho aqui metido,

Como dizem — co’a mão na ratoeira. —

“— Mas, senhor...”

“— Qual senhor, nem pera nada!...

Mataste esta mulher, és criminoso!

Vamos, caminha! —”

“— Espere um pouco, eu juro...”

“— Quem é que ainda crê em juramentos?

Não queres ir por bem — irás à força!... —”

Puxa-me por um braço...

Arre! que susto!...

Acordo n’esse instante — inda sentindo

Alguém que me puxava realmente

Pelo braço direito...

Mas não era

O barbudo sargento de polícia:

Era a jovem cantora, que fizera

O gordo reverendo convidar-me

Para a ceia da véspera, que estava

Cansada de esperar que eu acordasse

A fim de acompanhá-la n’esse instante

A tomar o gostoso chocolate

Que esfriava na xícara.