Páginas de Boêmia – XVI Quando eu morrer
Se eu morrer amanhã, ó meu amigo,
Pega n’uma das alças do caixão,
E não deixes ninguém jogar comigo,
Como um fardo lançado n’um porão.
E lá... à fresca sombra do cipreste,
Onde vamos por fim todos dormir,
Faze um discurso (mesmo que não preste)
Mas — que não faça o auditório rir.
Dize que a nossa pátria desditosa
Vê comigo baixar ao mausoléu
A estrela mais fulgente e luminosa
Que apenas despontava em pleno céu...
E que eu fui econômico e sisudo,
Que duravam-me um mês os meus botins;
Que podia morrer mais barrigudo,
Embora não comesse em botequins.
E que eu fui um luzeiro da ciência,
Isso não, porque podem se espantar...
Que conservei intacta a inocência,
E nem sabia até — jogar bilhar!
E que fui inimigo das mulheres...
E que nunca voei do asas de pau...
Ora! dize inda mais, o que quiseres:
Pois sabes que não há defunto mau.
E depois, quando a enxada do coveiro
Puxar a terra para o meu caixão,
Escreve p’ra o meu leito derradeiro
Esta inscrição:
— Aqui jazem os restos de um poeta,
Que não morreu de frio nem de fome;
Julgando a sepultura uma indiscreta,
Não quis dizer-lhe nem sequer seu nome.
Nasceu no dia tal, às tantas horas,
Como nasce qualquer burguês ou conde;
Requestou raparigas e senhoras...
E, sem pagar imposto, andou de bond.
Agora que o cantor bateu a bota
E contra a fidalguia já não berra:
Pobre vate! — antes fosse um agiota,
Que é só quem é profeta n’esta terra. —