Páginas de Boêmia – XVI Quando eu morrer

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Se eu morrer amanhã, ó meu amigo,

Pega n’uma das alças do caixão,

E não deixes ninguém jogar comigo,

Como um fardo lançado n’um porão.

E lá... à fresca sombra do cipreste,

Onde vamos por fim todos dormir,

Faze um discurso (mesmo que não preste)

Mas — que não faça o auditório rir.

Dize que a nossa pátria desditosa

Vê comigo baixar ao mausoléu

A estrela mais fulgente e luminosa

Que apenas despontava em pleno céu...

E que eu fui econômico e sisudo,

Que duravam-me um mês os meus botins;

Que podia morrer mais barrigudo,

Embora não comesse em botequins.

E que eu fui um luzeiro da ciência,

Isso não, porque podem se espantar...

Que conservei intacta a inocência,

E nem sabia até — jogar bilhar!

E que fui inimigo das mulheres...

E que nunca voei do asas de pau...

Ora! dize inda mais, o que quiseres:

Pois sabes que não há defunto mau.

E depois, quando a enxada do coveiro

Puxar a terra para o meu caixão,

Escreve p’ra o meu leito derradeiro

Esta inscrição:

— Aqui jazem os restos de um poeta,

Que não morreu de frio nem de fome;

Julgando a sepultura uma indiscreta,

Não quis dizer-lhe nem sequer seu nome.

Nasceu no dia tal, às tantas horas,

Como nasce qualquer burguês ou conde;

Requestou raparigas e senhoras...

E, sem pagar imposto, andou de bond.

Agora que o cantor bateu a bota

E contra a fidalguia já não berra:

Pobre vate! — antes fosse um agiota,

Que é só quem é profeta n’esta terra. —