Páginas de Boêmia – XVIII Parêntesis
Muito embora procurem separar-nos,
Tu sempre serás minha... eu sempre teu!
Somente a morte poderá roubar-te
Do peito meu.
Amei-te e tu amaste-me. Juntámos
Nossas almas e o nosso coração;
Fundimos em um só nossos espíritos
N’essa paixão.
Teu peito palpitou contra meu peito,
Teus lábios apertei aos meus... e bem!
Unidos desmaiamos... revivemos
Juntos também!
Se fosses tu a cortesã das salas,
Que não sente emoções quando nos beija,
Se fosses tu a meretriz das praças,
Que o corpo mercadeja;
Então, sim, poderias esquecer-me
No mesmo instante em que eu saísse: e morta
De ambição — te entregares ao primeiro
Que batesse à tua porta...
Mas tu não és a cortesã sem alma,
Que jura amar-nos quando nada sente;
Não és tampouco a messalina torpe,
Vil, — impudente!
És a mulher inteligente e bela,
Que amou, mais que ao mancebo, ao sonhador!
A Musa de um Poeta! a irmã dos anjos...
Anjo de amor!...
Tu me inspiraste uma afeição sincera,
Cheia de crenças, esperança e glória,
Não d’essas afeições que se evaporam
Na vida transitória.
É um amor profundo, imenso, eterno,
Profundo, imenso, eterno — como o céu!...
Amor que há de ir conosco pela vida
Ao chão do mausoléu.
Não foras tu, Senhora! tão formosa,
Não foras como os anjos do Senhor,
Ó mimo do meu Deus! eu não te amara
Com tanto amor!...
Tu’alma da minh’alma é irmã gêmea,
Teu coração foi feito para o meu:
Ambos são tão iguais, que, se os juntassem,
Qualquer seria o meu.
Qualquer; mas, se em teu peito por acaso
Fosse o meu coração ficar trocado,
Desde então tu — serias mais sensível...
Eu — menos desgraçado!...
Eu caminhava triste pela vida,
Como o hebreu das santas Escrituras,
Sem flores em redor, sem uma estrela
Brilhando nas alturas...
E tu passaste... A tatear, na sombra,
Segui o rastro de teus pés divinos:
Mandei-te no crepúsculo a minh’alma,
Nas brisas os meus hinos!
Bem como a rola distendendo as asas,
Para estreitar o pombo em efusão,
Abriste-me os teus braços, os teus seios...
Teu manso coração!...
Como eras boa e como eu era amante!
Nossa vida era um sonho de ternuras;
Que sede, que desejos, que delírios...
Mulher! quantas loucuras!...