Páginas de Boêmia – XVIII Parêntesis

By Múcio Scevola Lopes Teixeira

Muito embora procurem separar-nos,

Tu sempre serás minha... eu sempre teu!

Somente a morte poderá roubar-te

Do peito meu.

Amei-te e tu amaste-me. Juntámos

Nossas almas e o nosso coração;

Fundimos em um só nossos espíritos

N’essa paixão.

Teu peito palpitou contra meu peito,

Teus lábios apertei aos meus... e bem!

Unidos desmaiamos... revivemos

Juntos também!

Se fosses tu a cortesã das salas,

Que não sente emoções quando nos beija,

Se fosses tu a meretriz das praças,

Que o corpo mercadeja;

Então, sim, poderias esquecer-me

No mesmo instante em que eu saísse: e morta

De ambição — te entregares ao primeiro

Que batesse à tua porta...

Mas tu não és a cortesã sem alma,

Que jura amar-nos quando nada sente;

Não és tampouco a messalina torpe,

Vil, — impudente!

És a mulher inteligente e bela,

Que amou, mais que ao mancebo, ao sonhador!

A Musa de um Poeta! a irmã dos anjos...

Anjo de amor!...

Tu me inspiraste uma afeição sincera,

Cheia de crenças, esperança e glória,

Não d’essas afeições que se evaporam

Na vida transitória.

É um amor profundo, imenso, eterno,

Profundo, imenso, eterno — como o céu!...

Amor que há de ir conosco pela vida

Ao chão do mausoléu.

Não foras tu, Senhora! tão formosa,

Não foras como os anjos do Senhor,

Ó mimo do meu Deus! eu não te amara

Com tanto amor!...

Tu’alma da minh’alma é irmã gêmea,

Teu coração foi feito para o meu:

Ambos são tão iguais, que, se os juntassem,

Qualquer seria o meu.

Qualquer; mas, se em teu peito por acaso

Fosse o meu coração ficar trocado,

Desde então tu — serias mais sensível...

Eu — menos desgraçado!...

Eu caminhava triste pela vida,

Como o hebreu das santas Escrituras,

Sem flores em redor, sem uma estrela

Brilhando nas alturas...

E tu passaste... A tatear, na sombra,

Segui o rastro de teus pés divinos:

Mandei-te no crepúsculo a minh’alma,

Nas brisas os meus hinos!

Bem como a rola distendendo as asas,

Para estreitar o pombo em efusão,

Abriste-me os teus braços, os teus seios...

Teu manso coração!...

Como eras boa e como eu era amante!

Nossa vida era um sonho de ternuras;

Que sede, que desejos, que delírios...

Mulher! quantas loucuras!...