Papoula

By João da Cruz e Sousa

Assim loura és mais formosa

Do que se fosses trigueira:

Corpo de eflúvios de rosa

Com esbeltez de palmeira.

Vestida de cor da aurora

Leve dos fluidos da graça,

És uma estrela sonora

Que, em sonhos, pelo éter passe.

Resplandece em teu cabelo

Um fulgor de sol dourado,

Que só de senti-lo e vê-lo

Fica tudo iluminado.

Do teu branco leque aberto

Que lembra uma asa de garça,

Aspiro um perfume incerto,

Talvez a tua alma esparsa.

Num resplendor de madona

E altivez de corça arisca

Surges da luz entre a zona

Com quebrantos de odalisca.

Que venha o duque normando

De castelos escoceses

Com seu ar bizarro e brando

Amar-te os olhos ingleses.

E entre aromas e frescores

E revoadas de abelhas,

Como num campo de flores

Que esse olhar vibre centelhas.

Que cantem na tua boca

As alegrias radiadas,

Numa ideal rajada louca

De voos de passaradas.

Que como os astros no espaço,

Teu encanto resplandeça...

Com pelúcias no regaço

E asas de ave na cabeça.

E que os teus dois seios puros

Que o amor fecundando beija

Fiquem cheios e maduros

Com dois bicos de cereja.