Para perdoar

By Juvêncio de Araújo Figueredo

Meu querido e belo amigo

Por que não tens outro abrigo?

Do mundo onde caminhaste,

Ainda não te separaste?

Por que não fechaste os olhos

Aos teus trágicos escolhos?

Por que não fechaste o ouvido

À voz de qualquer gemido?

Por que razão a tua alma

Dos tormentos colhe a palma?

Tens a cruz dos renegados

Por sobre os ombros cansados?

E te coroas de espinhos

Por estes ínvios caminhos?

E tens os braços e os pulsos

Profundamente convulsos?

E sentes a testa exangue

Nos gotejas do teu sangue?

E vês abrir-se, em destroços,

O teu coração de moço?

E vês cravado o teu peito

Pelas lanças do despeito?

Por que andas pelos cardos,

E enfrentas chuvas de dardos?

Por que soluças e choras,

Mesmo ao clarão das auroras?

Por que lágrimas derramas,

Quando no sonho te inflamas?

Por que não dormes, não dormes,

Pelas noites desconformes?

Por que no chão não te assentas,

Pelas noites de tormentas?

Por que não buscas um teto

Bom, igual ao teu afeto?

Por que não buscas um astro

Onde não se anda de rastro?

Por que não sobes e ficas

Numa estrela das mais ricas?

Por que andas, Cruz e Sousa,

No mundo que é fria lousa?

Por que, de noite e de dia,

Não vens com a Virgem Maria?

— Com Ela é que eu desço à terra

Que tantas lamas encerra.

— Desço à terra, em companhia,

Da Virgem Santa Maria,

— Para encontrar, nas estradas,

Os que me deram pedradas,

— E ampará-los nos meus braços,

Sem nenhuma prevenção;

E levá-los aos espaços

Nas asas do meu perdão.