PARÁBOLA, A CONSTRUÇÃO DO MOINHO

By José Joaquim Correia de Almeida

Conta-se que um fubazeiro

Fez construir um moinho,

E, esperando aplauso inteiro,

Mostrou esta obra ao vizinho.

O hidráulico monumento

Era posto sobre um monte,

Como se fora de vento,

Sobranceiro a qualquer fonte.

Tu não julgas excelente

A moega? Olha o rodízio!

Se vês inconveniente,

Dize-o, amigo, dize-o, dize-o.

— Tudo está na melhor ordem,

Teu parecer compartilho;

Todos conosco concordem

Que a mó pulveriza o milho.

Tem somente uma avaria

Tua máquina tamanha!

— Qual? — A água não subiria

Ao alto desta montanha!

— Oh! não me ocorreu tal cousa,

Compadre, que menoscabo!

Se não mói, e só repousa,

Leve o moinho o diabo!

Do ensino ou professorato

Para completa reforma,

Um sábio triunvirato

Nos apresenta esta norma:

O latim seja proscrito,

Pois não serve para nada;

Não tem préstimo, está dito,

Língua morta e abandonada.

Mas é preciso notar-se

Que na douta academia

Sem latim matricular-se

O aluno não poderia!

Tal razão não ocorrera

A quem a instrução revolve,

E essa reforma de cera

Com a objeção se dissolve.