PARÁBOLA, A CONSTRUÇÃO DO MOINHO
Conta-se que um fubazeiro
Fez construir um moinho,
E, esperando aplauso inteiro,
Mostrou esta obra ao vizinho.
O hidráulico monumento
Era posto sobre um monte,
Como se fora de vento,
Sobranceiro a qualquer fonte.
Tu não julgas excelente
A moega? Olha o rodízio!
Se vês inconveniente,
Dize-o, amigo, dize-o, dize-o.
— Tudo está na melhor ordem,
Teu parecer compartilho;
Todos conosco concordem
Que a mó pulveriza o milho.
Tem somente uma avaria
Tua máquina tamanha!
— Qual? — A água não subiria
Ao alto desta montanha!
— Oh! não me ocorreu tal cousa,
Compadre, que menoscabo!
Se não mói, e só repousa,
Leve o moinho o diabo!
Do ensino ou professorato
Para completa reforma,
Um sábio triunvirato
Nos apresenta esta norma:
O latim seja proscrito,
Pois não serve para nada;
Não tem préstimo, está dito,
Língua morta e abandonada.
Mas é preciso notar-se
Que na douta academia
Sem latim matricular-se
O aluno não poderia!
Tal razão não ocorrera
A quem a instrução revolve,
E essa reforma de cera
Com a objeção se dissolve.