PARÁBOLA, A QUEIMADA E OS GAVIÕES
Para engordar bem o gado,
No mês de Julho ou de Agosto
O árido campo é queimado
Pelo fogo que lhe é posto.
O réptil que anda de rastos,
O inseto de tênues asas,
Entre o capim desses pastos
Tu, ó fogo, intenso abrasas.
De negra cinza cobertos
Filhotes de passarinhos;
Por serem menos espertos
Jazem dentro de seus ninhos.
Ainda bem a fumaça
Não se dissipa nos ares,
Já de gaviões esvoaça
Um bom número de pares.
E tal espécie de abutre,
Voraz ave de rapina,
De cadáveres se nutre
Ou por mau instinto ou sina.
É, pois, o incêndio flagelo
Dos fracos animalejos,
Porém traz recreio belo
Para os gaviões malfazejos.
Em um sucesso como este
Que boa moral se apanha!
Nos incêndios e na peste
Entre nós também se ganha!
O boticário aproveita
A monção, e impinge a droga;
E do médico a receita
Quanto mais cara, mais voga.
O bom padre neste ensejo
As finanças equilibra,
Aceita, cheio de pejo,
’Spórtula e vela de libra.
São de instintos diferentes
Os três gaviões aqui juntos;
Aqueles querem doentes,
O último só quer defuntos.