PARÁBOLA, A QUEIMADA E OS GAVIÕES

By José Joaquim Correia de Almeida

Para engordar bem o gado,

No mês de Julho ou de Agosto

O árido campo é queimado

Pelo fogo que lhe é posto.

O réptil que anda de rastos,

O inseto de tênues asas,

Entre o capim desses pastos

Tu, ó fogo, intenso abrasas.

De negra cinza cobertos

Filhotes de passarinhos;

Por serem menos espertos

Jazem dentro de seus ninhos.

Ainda bem a fumaça

Não se dissipa nos ares,

Já de gaviões esvoaça

Um bom número de pares.

E tal espécie de abutre,

Voraz ave de rapina,

De cadáveres se nutre

Ou por mau instinto ou sina.

É, pois, o incêndio flagelo

Dos fracos animalejos,

Porém traz recreio belo

Para os gaviões malfazejos.

Em um sucesso como este

Que boa moral se apanha!

Nos incêndios e na peste

Entre nós também se ganha!

O boticário aproveita

A monção, e impinge a droga;

E do médico a receita

Quanto mais cara, mais voga.

O bom padre neste ensejo

As finanças equilibra,

Aceita, cheio de pejo,

’Spórtula e vela de libra.

São de instintos diferentes

Os três gaviões aqui juntos;

Aqueles querem doentes,

O último só quer defuntos.