PARÁBOLA, LAGARTEIDA
De brutos de espécies várias
O Brasil é muito farto,
E entre a corja de alimárias
Vê-se o auriverde lagarto.
Denota o verde-amarelo
A Brasília autonomia,
E o réptil (que paralelo!)
Nas cores se lhe associa.
Aí porém não ’stá o alvo
A que dirijo meu tiro,
O estandarte são e salvo
Fique embora, que o não firo.
Para o combate ou descanso,
Para agressão ou defesa,
Ao bruto feroz ou manso
Deu armas a natureza.
Ao touro coube por sorte
O chifre de aguda ponta,
Ferra o dente o lobo forte
Sem peso medida ou conta.
Do rijo casco da pata
O burro também armou-se,
Muitíssimas vezes mata
Ingrato asinino couce.
Mas o herói deste poema
Quem há i que não aplauda?
O lagarto há quem não tema,
Tendo ele por arma a cauda?
Haja vista ajararaca,
E diga o que val seu bote,
Quando este inimigo a ataca,
E faz da cauda chicote.
Ó do mundo aristocratas,
De pergaminho homens fartos.
Em vez de pés tendes patas,
E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas
De barões, duques, marqueses,
Com comendas e outras cunhas,
De cauda vos faz as vezes.
Eu não me refiro àqueles
Bons servidores do Estado,
Atenções merecem eles,
Seu proceder é ilibado.
No Brasil não se conhece,
Inda não há felizmente
Fidalguia que viesse
De raiz ou de semente.
Cada um dos titulares
Enxertos tem aceitado,
Com ser honesto nos lares,
E ao país ser devotado.
Portanto aos nossos patrícios
Repito que não aludo,
Não lhes vejo certos vícios,
De nascença sobretudo.
Uma ou outra exceçãozinha
Eu não digo que não haja,
Porque a peste se avizinha,
Porque o cólera viaja.
Ó do mundo aristocratas,
De pergaminho homens fartos,
Em vez de pés tendes patas,
E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas
De barões, duques, marqueses,
Com comendas e outras cunhas,
De cauda vos faz as vezes.
Albergando em vossos peitos
Fatuidade e vão orgulho,
Vós vos olhais com despeitos
E com recíproco engulho.
Para serdes altaneiros,
São mesquinhos vossos fatos;
Os lagartos são rasteiros,
Lagartos são sempre chatos.
Vos arrogais privilégios,
Que a natura vos não dera;
Nisso fazeis sacrilégios,
Que a sapiência pondera.
Se da mulher o nascido,
Conforme doutrinas sérias,
Em todo o tempo tem sido
Um conjunto de misérias;
Se temos igual fraqueza,
E as mesmas necessidades,
Não sois de outra natureza,
Ó lodosas divindades!
Nem também por vós trazerdes
Jaezes de alto quilate,
Vossas artérias são verdes
E a dentadura escarlate.
Em suma, porque me alongo,
E de razões ando à cata?
O lagarto rabilongo
Deixa de ser quadrupata?
Por terdes, fidalgos podres,
Tão bonitos ornamentos,
Deixais de ser sujos odres
Que trasbordam excrementos?
Dos brasões a vã ciência
Por mais que o fidalgo estude,
É nula proficiência,
Quando lhe falta a virtude.
Ó do mundo aristocratas,
De pergaminho homens fartos,
Em vez de pés tendes patas,
E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas
De barões, duques, marqueses,
Com comendas e outras cunhas
De cauda vos faz as vezes.
Em mil páginas da história,
Apesar de vossas fitas,
Horrenda é vossa memória,
Meus ilustres parasitas.
Nesses postos eminentes,
Que ocupais lá nessas grimpas,
Não sois figuras decentes,
Não estais de caras limpas.
A escada por que subistes
A posições tão sublimes
Tem por degraus casos tristes
De infâmia baixeza e crimes.
Pelos recursos da insídia
As bolsas enchestes de ouro,
Pois vossa torpe auricídia
Não se teme do desdouro.
Dos próprios irmãos a herança
Que nome tem quem usurpa?
Desses morgados a usança
Direito é que vos deturpa.
Múltiplo exerceis o emprego,
E tendes prebenda gorda;
É tenaz o vosso apego,
Por não perderdes a açorda.
A vergonha em almoeda
A cada passo vós pondes,
Falsificastes moeda,
E por isso sois vis-condes.
Vossas armas defensivas
Assaz vos tornam valentes,
Deixais ver rubras gengivas,
Arreganhando alvos dentes.
Alguns de vós têm o casco
De orelhudo e vil jumento,
Alguns de vós, causando asco,
Ferem com pontas de armento.
Se estas armas entretanto
Vos são do melhor efeito,
Vossa cauda, que decanto,
Mais vos garante o direito.
Ó do mundo aristocratas,
De pergaminho homens furtos,
Em vez de pés tendes patas,
E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas
De barões, duques, marqueses,
Com comendas e outras cunhas,
De cauda vos faz as vezes.
Este é o ponto de essência
Sobre que versa a epopeia,
Dos rabos por excelência
Darei a mais ampla ideia.
Tais assuntos... porém basta?
Quem o quiser, aprofunde-os;
Se bem que a matéria é vasta,
Silentium verbis jacundius.