PARÁBOLA, O ABACATE

By José Joaquim Correia de Almeida

Diante de nossas frutas

Parece que não se abate,

Nem às lutas

Ou combate,

Foge o afamado abacate.

Como prova do bom gosto,

Na lauta mesa dos nobres

Ele é posto,

E o descobres

Refeição parca dos pobres.

Noto, porém, que se come

Ou com limão ou com vinho,

E que o tome

O vizinho

Adoçado um poucachinho.

A preta jaboticaba

Exclui os ingredientes,

Nem acabe

Entre os dentes

O belo sabor que sentes.

A gabiroba do prado

Tem requintes de doçura,

E é escusado,

Nem se atura

Açúcar nem rapadura.

Se o ananás tem coroa,

Decerto bem o merece;

Cousa boa

Me parece,

Pois de adubos não carece.

No meio desses magnates,

Por entre os parlamentares,

Grande porção de abacates

É mui fácil de encontrares.

Mérito próprio é bem raro,

Luz refletida é emprestada,

E o país paga bem caro

Muita lição orelhada.

E nos trabalhos de peso,

Nos importantes debates,

Empertigado e bem teso

Brilha algum dos abacates?

Tudo neles é postiço,

Por si não presta a pessoa;

Entretanto e apesar disso

Seu renome se apregoa!

Aquele por ser parente,

Estoutro por ser visconde,

Têm o valor aparente,

Que o real ’stá não sei onde!