PARÁBOLA, O ABACATE
Diante de nossas frutas
Parece que não se abate,
Nem às lutas
Ou combate,
Foge o afamado abacate.
Como prova do bom gosto,
Na lauta mesa dos nobres
Ele é posto,
E o descobres
Refeição parca dos pobres.
Noto, porém, que se come
Ou com limão ou com vinho,
E que o tome
O vizinho
Adoçado um poucachinho.
A preta jaboticaba
Exclui os ingredientes,
Nem acabe
Entre os dentes
O belo sabor que sentes.
A gabiroba do prado
Tem requintes de doçura,
E é escusado,
Nem se atura
Açúcar nem rapadura.
Se o ananás tem coroa,
Decerto bem o merece;
Cousa boa
Me parece,
Pois de adubos não carece.
No meio desses magnates,
Por entre os parlamentares,
Grande porção de abacates
É mui fácil de encontrares.
Mérito próprio é bem raro,
Luz refletida é emprestada,
E o país paga bem caro
Muita lição orelhada.
E nos trabalhos de peso,
Nos importantes debates,
Empertigado e bem teso
Brilha algum dos abacates?
Tudo neles é postiço,
Por si não presta a pessoa;
Entretanto e apesar disso
Seu renome se apregoa!
Aquele por ser parente,
Estoutro por ser visconde,
Têm o valor aparente,
Que o real ’stá não sei onde!