PARÁBOLA, O PAINEL DAS ONZE MIL VIRGENS
A célebre pintor encomendaram
das tais Onze Mil Virgens um painel,
já esplêndidas tintas se preparam,
e enfim se admira o efeito do pincel.
Vê-se na estreita porta de uma Igreja
meia dúzia de moças a saírem!
E o resto?!... Crede que inda dentro esteja,
diz o pintor àqueles que o inquirem.
Em ambos os partidos
do Império do Brasil
estão reproduzidos
mil quadros de onze mil.
Conhece-se o gigante pelo dedo,
assevera antiquíssimo rifão;
conserve-se pois firme, qual penedo,
a regra sem a mínima exceção.
De longe se nos dê pequena amostra
do oculto profundíssimo saber,
que, enquanto a gente crédula se prostra,
deve entre lusco e fusco aparecer.
Rabiscador de efêmeras gazetas
de preço de vintém, que ainda é caro,
entesoura a verdade, impinge as petas,
e vai sendo escritor de nome raro.
Novel folhetinista, que remata
com pilhérias ou pílulas sem sal,
é logo promovido a diplomata,
e assiste à exposição universal.
Histórias inventando, escreve a História
espírito tão reto como um arco,
e se os heróis ao templo da Memória
não leva, leva as lampas a Plutarco.
Apenas balbucia o Deputado,
três, quatro ou cinco chochos palavrões,
dizem que fez discurso, e é reputado
capaz de entrar em sérias discussões.
Desconhecido, ilustre sertanejo,
que fresca não comeu uma sardinha,
de mostrar a ciência teve pejo,
porém aceita a pasta da marinha.
Doutíssimo doutor jurisconsulto
nos despachos só sabe pôr um — sim,
e destarte se toma um grande vulto,
e sobe ao Ministério só assim.
Meu leitor perspicaz, aqui me fico;
a migalha que os sábios do Brasil
nos dão faz que ninguém lhes meta o bico
no paiol, como em quadro de onze mil.