PARÁBOLA, O PAINEL DAS ONZE MIL VIRGENS

By José Joaquim Correia de Almeida

A célebre pintor encomendaram

das tais Onze Mil Virgens um painel,

já esplêndidas tintas se preparam,

e enfim se admira o efeito do pincel.

Vê-se na estreita porta de uma Igreja

meia dúzia de moças a saírem!

E o resto?!... Crede que inda dentro esteja,

diz o pintor àqueles que o inquirem.

Em ambos os partidos

do Império do Brasil

estão reproduzidos

mil quadros de onze mil.

Conhece-se o gigante pelo dedo,

assevera antiquíssimo rifão;

conserve-se pois firme, qual penedo,

a regra sem a mínima exceção.

De longe se nos dê pequena amostra

do oculto profundíssimo saber,

que, enquanto a gente crédula se prostra,

deve entre lusco e fusco aparecer.

Rabiscador de efêmeras gazetas

de preço de vintém, que ainda é caro,

entesoura a verdade, impinge as petas,

e vai sendo escritor de nome raro.

Novel folhetinista, que remata

com pilhérias ou pílulas sem sal,

é logo promovido a diplomata,

e assiste à exposição universal.

Histórias inventando, escreve a História

espírito tão reto como um arco,

e se os heróis ao templo da Memória

não leva, leva as lampas a Plutarco.

Apenas balbucia o Deputado,

três, quatro ou cinco chochos palavrões,

dizem que fez discurso, e é reputado

capaz de entrar em sérias discussões.

Desconhecido, ilustre sertanejo,

que fresca não comeu uma sardinha,

de mostrar a ciência teve pejo,

porém aceita a pasta da marinha.

Doutíssimo doutor jurisconsulto

nos despachos só sabe pôr um — sim,

e destarte se toma um grande vulto,

e sobe ao Ministério só assim.

Meu leitor perspicaz, aqui me fico;

a migalha que os sábios do Brasil

nos dão faz que ninguém lhes meta o bico

no paiol, como em quadro de onze mil.