PARÁBOLA, O PEÃO CAVALEIRO

By José Joaquim Correia de Almeida

Dizem que certo sujeito

Chegando a obter um cavalo,

Procedeu com pouco jeito

Quando tentou cavalgá-lo.

Um mau efeito seguiu-se,

E lhe trouxe menoscabo;

Pois o tal sujeito viu-se

Com a cara para o rabo.

Voltando assim de focinho

Para as estranhas paragens,

Faz queixumes ao vizinho

Contra a imperícia dos pajens.

São estúpidos, diz ele,

Não viraram bem o bruto;

Fustigá-los-ei na pele,

Hão de colher esse fruto.

Na política de nomes,

Ainda pior que a peste,

Ainda pior que as fomes,

Há muito fato como este.

Anda a pé um democrata,

E os cavaleiros apupa;

Mas, pelos calos da pata,

Ambiciona uma garupa.

Ele enfim se encarapita,

Ou no cavalo se escancha;

Mas se a sorte o felicita,

Não lhe lava toda a mancha.

Ou por escárnio da sorte,

Ou por artes do diabo,

Agulha para ruim norte,

Volta a cara para o rabo.

Como hoje é seu todo o mundo,

Hoje todo o mundo aplauda

O cavaleiro jucundo

Com o rosto para a cauda.

Corrido ele de si mesmo

Pela cena que apresenta,

Dá esporadas a esmo,

E as surriadas aguenta.

Não o acuse qualquer homem,

De incoerência e de abalo,

Antes pela rédea tomem,

E lhe virem o cavalo.

Se tem para a frente as costas,

Como arlequim ou palhaço,

Suas vistas estão postas

Na cauda e fim do espinhaço.

Dos impossíveis a crença,

Que pode ser, por injusta,

Um dos aleives da imprensa,

A muitos peões assusta.

Fazem cálculos e conta,

E assentam que é grã loucura

Andar-se a pé, se outro monta

Em boa cavalgadura,

Daqui vem a concorrência,

E muita gente cavalga,

Bom grado aceita excelência,

E quer passar por fidalga.

Um emprego lucrativo

Traz consigo seus regalos,

É o melhor lenitivo,

É o melhor dos cavalos.

Se o ex-peão, cavaleiro

Para a cauda volta o rosto,

O palhaço chocarreiro

Também assim faz por gosto.

Se é ridícula a postura,

Não faltará quem aplauda;

É do palhaço a figura

De focinho para a cauda.

Apesar de lucros vários,

Quais do palhaço as vantagens,

Mete as botas nos sectários

Que lhe servirão de pajens.

Como se a culpa recaia

Sobre quem culpa não teve

Nas surriadas, na vaia

Que é punição a mais leve.

São estúpidos, diz ele,

Não viraram bem o bruto,

Fustigá-los-ei na pele,

Hão de colher esse fruto.

Estou firme no meu posto,

E, qual rocha, não me abalo;

Virado não está meu rosto,

Sim a cauda do cavalo.

Esta é a caricatura

De qualquer fidalgo novo,

Que em sua cavalgadura

Já não é filho do povo.

E como Grande do Império,

De casaca pelo avesso,

Alvo de chasco e dictério,

É cavaleiro de gesso.