PARÁBOLA, O PEÃO CAVALEIRO
Dizem que certo sujeito
Chegando a obter um cavalo,
Procedeu com pouco jeito
Quando tentou cavalgá-lo.
Um mau efeito seguiu-se,
E lhe trouxe menoscabo;
Pois o tal sujeito viu-se
Com a cara para o rabo.
Voltando assim de focinho
Para as estranhas paragens,
Faz queixumes ao vizinho
Contra a imperícia dos pajens.
São estúpidos, diz ele,
Não viraram bem o bruto;
Fustigá-los-ei na pele,
Hão de colher esse fruto.
Na política de nomes,
Ainda pior que a peste,
Ainda pior que as fomes,
Há muito fato como este.
Anda a pé um democrata,
E os cavaleiros apupa;
Mas, pelos calos da pata,
Ambiciona uma garupa.
Ele enfim se encarapita,
Ou no cavalo se escancha;
Mas se a sorte o felicita,
Não lhe lava toda a mancha.
Ou por escárnio da sorte,
Ou por artes do diabo,
Agulha para ruim norte,
Volta a cara para o rabo.
Como hoje é seu todo o mundo,
Hoje todo o mundo aplauda
O cavaleiro jucundo
Com o rosto para a cauda.
Corrido ele de si mesmo
Pela cena que apresenta,
Dá esporadas a esmo,
E as surriadas aguenta.
Não o acuse qualquer homem,
De incoerência e de abalo,
Antes pela rédea tomem,
E lhe virem o cavalo.
Se tem para a frente as costas,
Como arlequim ou palhaço,
Suas vistas estão postas
Na cauda e fim do espinhaço.
Dos impossíveis a crença,
Que pode ser, por injusta,
Um dos aleives da imprensa,
A muitos peões assusta.
Fazem cálculos e conta,
E assentam que é grã loucura
Andar-se a pé, se outro monta
Em boa cavalgadura,
Daqui vem a concorrência,
E muita gente cavalga,
Bom grado aceita excelência,
E quer passar por fidalga.
Um emprego lucrativo
Traz consigo seus regalos,
É o melhor lenitivo,
É o melhor dos cavalos.
Se o ex-peão, cavaleiro
Para a cauda volta o rosto,
O palhaço chocarreiro
Também assim faz por gosto.
Se é ridícula a postura,
Não faltará quem aplauda;
É do palhaço a figura
De focinho para a cauda.
Apesar de lucros vários,
Quais do palhaço as vantagens,
Mete as botas nos sectários
Que lhe servirão de pajens.
Como se a culpa recaia
Sobre quem culpa não teve
Nas surriadas, na vaia
Que é punição a mais leve.
São estúpidos, diz ele,
Não viraram bem o bruto,
Fustigá-los-ei na pele,
Hão de colher esse fruto.
Estou firme no meu posto,
E, qual rocha, não me abalo;
Virado não está meu rosto,
Sim a cauda do cavalo.
Esta é a caricatura
De qualquer fidalgo novo,
Que em sua cavalgadura
Já não é filho do povo.
E como Grande do Império,
De casaca pelo avesso,
Alvo de chasco e dictério,
É cavaleiro de gesso.