PARÁBOLA, O RAPÉ VIAJADO
Vou contar uma anedota,
Que não se tenha por treta,
Sobre a viagem ou rota
Do rapé areia-preta.
Nas plagas americanas
Esse rapé se fabrica,
Mas no país das bananas
Pouco vale, se aí fica.
Embarcado em nau veleira
Da Europa demanda o rumo,
E na rápida carreira
Foge da terra do fumo.
Volta no mesmo caixote,
Cujos pregos não ilude,
Nem consta que se lhe bote
Na Europa qualquer virtude.
Se passou na realidade
Dos equinócios a linha,
Reconhecer quem não lhe há de
Atributos que não tinha?
Dão-lhe valor no mercado
Da boa pitada os juízes,
Aos quais presta o viajado
Regalo para os narizes.
Que suavíssimo aroma,
Dizem aqueles macacos!
Cada qual o sorve, o toma,
Como o melhor dos tabacos.
Vou contar outra anedota,
Que não se tenha por treta,
Sobre a viagem ou rota
De uns que vestem roupa preta.
Nos seminários estuda
Um jovem, toma-se padre,
Porque Deus é quem o ajuda
Em honra da Santa Madre.
Sua conduta é sem chaga,
Qualquer dos mestres o atesta,
Vários casos do Larraga
Ele os tem dentro da testa.
Teológicos mistérios
Desenvolve-os palmo a palmo,
Apto para magistérios
Até já levanta um salmo!
Porém isto que se aprende
Em aulas americanas
Pouco mérito lhe rende
Neste país das bananas.
Vai-se o padre barra-fora
Demandando o velho mundo,
E podereis vê-lo agora
De chofre sábio profundo.
Sim, senhor! Entrando em Roma,
Com ver de relance o Papa
Colhe de ciências tal soma,
Que uma só lhe não escapa!
O sacerdote
Como aquele é,
Parece um bote
Desse rapé.
Tem mais valia
Vindo de lá
Do que teria
Morando cá.
Dá-lhe vantagem,
Dá-lhe valor
A só passagem
Pelo Equador.