PARÁBOLA, O SIMPLÍCIO A COLHER FRUTAS

By José Joaquim Correia de Almeida

“Apanha-me lá, Simplício,

no pomar o que te apraza;

tira-me deste suplício,

deste calor que me abrasa.

Conto certo que me tragas

frescas, dulcíssimas frutas.

Não tens de molhar as bragas,

pois não vais apanhar trutas.”

Simplício aceita a empreitada,

acha mangas na mangueira,

maracujás na latada,

pitangas na pitangueira.

Mas o rapaz diligente

quer prestar um bom serviço,

e, sem perguntar à gente,

vê frutas de maior viço.

Torce a cara, ombros encolhe

à vista de uma laranja;

arregala os olhos, colhe,

por ser graúda, a turanja.

A preta jaboticaba

não parece cousa boa:

Simplício, que a menoscaba,

põe-se a colher a zamboa.

A nenhum guia acompanha,

e, na alameda remota,

para encher o cesto apanha

muita e muita vergamota.

Carregado o prestimoso

Simplício, como um camelo,

diz que traz pomo mimoso,

mas eu não posso comê-lo.

Se algum leitor se recreia

na parábola e se emenda,

em nenhum Simplício creia,

para fazer-lhe encomenda.

Diz um rifão que não mente:

quem quer vai, quem não quer manda;

por não se ir pessoalmente,

perde-se muita demanda.