PARÁBOLA, O SIMPLÍCIO A COLHER FRUTAS
“Apanha-me lá, Simplício,
no pomar o que te apraza;
tira-me deste suplício,
deste calor que me abrasa.
Conto certo que me tragas
frescas, dulcíssimas frutas.
Não tens de molhar as bragas,
pois não vais apanhar trutas.”
Simplício aceita a empreitada,
acha mangas na mangueira,
maracujás na latada,
pitangas na pitangueira.
Mas o rapaz diligente
quer prestar um bom serviço,
e, sem perguntar à gente,
vê frutas de maior viço.
Torce a cara, ombros encolhe
à vista de uma laranja;
arregala os olhos, colhe,
por ser graúda, a turanja.
A preta jaboticaba
não parece cousa boa:
Simplício, que a menoscaba,
põe-se a colher a zamboa.
A nenhum guia acompanha,
e, na alameda remota,
para encher o cesto apanha
muita e muita vergamota.
Carregado o prestimoso
Simplício, como um camelo,
diz que traz pomo mimoso,
mas eu não posso comê-lo.
Se algum leitor se recreia
na parábola e se emenda,
em nenhum Simplício creia,
para fazer-lhe encomenda.
Diz um rifão que não mente:
quem quer vai, quem não quer manda;
por não se ir pessoalmente,
perde-se muita demanda.