PARÁBOLA, O SOL E OS RELOJOEIROS
Dos astros o mais luzente
Subira ao alto da esfera,
Ia descer ao poente,
Pois meio-dia fizera.
De relógios mais de um cento
Uma hora diversa marca,
Se é trama, acaso, ou portento
Minha razão não abarca.
Quem sabe se os relojeiros,
Por imperícia ou suborno,
Mal dirigindo os ponteiros
Motivam esse transtorno?
Em tal divergência ou engano
Meu espírito não erra
Se crê no sol meridiano
Mais que em relógios da Terra.
Formam estes maioria,
Não passa o sol de unidade,
Porém é no astro do dia
Onde repousa a verdade.
Se muita questão se agita
No mundo sempre agitado,
Nem sempre a verdade habita
Das maiorias ao lado.