PARÁBOLA, OS LAGARTOS OU A ABSTENÇÃO
Quando de casa me aparto
no princípio do verão,
encontro muito largato,
aqui e ali pelo chão.
Se, enquanto faz frio ou chove,
nenhum lagarto se vê,
ninguém o fato reprove,
pois não há razão por quê.
Que o triste inverno enregela,
e vem produzir torpor,
é verdade tão singela
que não há que se lhe opor.
Que foi sempre a primavera
a estação de se gozar
se todo mundo o assevera,
eu não devo analisar.
Tem seus calores e frios
os Governos das Nações,
dias limpos ou sombrios,
revezadas estações.
E entre nós há muita gente
que só sabe aparecer
quando o frio se afugente,
e o sol nos venha aquecer.
Escondem-se apenas chove,
troveja e brilha o fuzil,
temendo raios de Jove
Lagartomens do Brasil.
O pior é que o ’strabismo
não lhes permite enxergar
que à ribanceira do abismo
estamos quase a chegar.