PARÁBOLA, OS LAGARTOS OU A ABSTENÇÃO

By José Joaquim Correia de Almeida

Quando de casa me aparto

no princípio do verão,

encontro muito largato,

aqui e ali pelo chão.

Se, enquanto faz frio ou chove,

nenhum lagarto se vê,

ninguém o fato reprove,

pois não há razão por quê.

Que o triste inverno enregela,

e vem produzir torpor,

é verdade tão singela

que não há que se lhe opor.

Que foi sempre a primavera

a estação de se gozar

se todo mundo o assevera,

eu não devo analisar.

Tem seus calores e frios

os Governos das Nações,

dias limpos ou sombrios,

revezadas estações.

E entre nós há muita gente

que só sabe aparecer

quando o frio se afugente,

e o sol nos venha aquecer.

Escondem-se apenas chove,

troveja e brilha o fuzil,

temendo raios de Jove

Lagartomens do Brasil.

O pior é que o ’strabismo

não lhes permite enxergar

que à ribanceira do abismo

estamos quase a chegar.