PARÁBOLA, OS QUATIS

By José Joaquim Correia de Almeida

O quati, bicho daninho,

É flagelo da lavoura;

Seu voraz, longo focinho

Não rejeita a espiga loura.

Percorre, aos bandos, a roça,

E come e destrói o milho;

Zomba do cão que o acossa,

Sabe iludir o gatilho.

Quando o tiro se dispara,

Cai a turba vil por terra;

Cuida o homem que acertara,

Porém nos cálculos erra.

Procura debalde a presa,

Que supõe ferida ou morta;

Reconhecendo a esperteza

Fica então de cara torta.

Há funcionários no Estado

Que aos quatis levam as lampas;

Contra os tais não há cadeado,

E nem ferrolhos, nem tampas.

Esta praga tão nociva

Tem a roça no tesouro;

De dura goela e gengiva

São quatis que comem ouro.

O bando infame penetra

Os arsenais, as escolas,

As alfândegas et cetra,

E reduz o povo a esmolas.

E se o fiscal verdadeiro

Faz nestes quatis seu alvo,

Do primeiro ao derradeiro

Tudo escapa são e salvo.