PARÁBOLA, OS TUCANOS

By José Joaquim Correia de Almeida

Há pássaros mui lindos

Nas matas e campinas do Brasil;

Voam bandos infindos,

E pousam na floresta aos mil e aos mil.

O p’riquito é formoso,

De belo aspecto a verde m’racanã,

O sabiá é mavioso

No gorjeio da tarde ou da manhã.

E, se eu me não iludo,

De tantos nenhum pode-se antepor

Ao tucano bicudo,

No lustre da aurirrubra e viva cor.

Porém se ele desata

Das cavernas do papo a feia voz,

Ouvidos desacata

Dos homens, ou do bruto mais feroz.

Associadas

São as ideias,

E aqui lembradas

As assembleias,

Ou reuniões.

Se esses janotas

Mostram no rosto

Das finas botas

O seu bom gosto,

São figurões!

Com espartilhos,

Dançam minuetes

Com rapapé.

Trazem gravatas

De finas cores,

E pataratas

De ahos valores,

Não sei pra quê.

Se um deles fala,

Embora humano,

Então iguala

Só ao tucano

No som vocal.

Sua palavra

Fere os ouvidos,

Ofende, agrava

E os faz doridos

Por nosso mal.

Inda isso é o menos,

E é cousa pouca,

Se os sons amenos

Na aberta boca

Ele não pôs.

Para o conceito,

Para a sentença,

Falta-lhe o jeito,

Nem é propensa

Ideia e voz.