PARÁBOLA, OS TUCANOS
Há pássaros mui lindos
Nas matas e campinas do Brasil;
Voam bandos infindos,
E pousam na floresta aos mil e aos mil.
O p’riquito é formoso,
De belo aspecto a verde m’racanã,
O sabiá é mavioso
No gorjeio da tarde ou da manhã.
E, se eu me não iludo,
De tantos nenhum pode-se antepor
Ao tucano bicudo,
No lustre da aurirrubra e viva cor.
Porém se ele desata
Das cavernas do papo a feia voz,
Ouvidos desacata
Dos homens, ou do bruto mais feroz.
Associadas
São as ideias,
E aqui lembradas
As assembleias,
Ou reuniões.
Se esses janotas
Mostram no rosto
Das finas botas
O seu bom gosto,
São figurões!
Com espartilhos,
Dançam minuetes
Com rapapé.
Trazem gravatas
De finas cores,
E pataratas
De ahos valores,
Não sei pra quê.
Se um deles fala,
Embora humano,
Então iguala
Só ao tucano
No som vocal.
Sua palavra
Fere os ouvidos,
Ofende, agrava
E os faz doridos
Por nosso mal.
Inda isso é o menos,
E é cousa pouca,
Se os sons amenos
Na aberta boca
Ele não pôs.
Para o conceito,
Para a sentença,
Falta-lhe o jeito,
Nem é propensa
Ideia e voz.