PARÁBOLA, SERMÃO DE SANTA DOROTEIA
Dia seis de Fevereiro
Com rapidez se avizinha,
E o piedoso festeiro
Já consultou a folhinha.
Com afã tudo se apresta,
Expectativa a mais bela,
Pois o melhor de uma festa
Sempre é o esperar por ela.
O tempo não corre, voa;
Eis chegado enfim o prazo,
E, conforme inda hoje soa,
Teve lugar este caso:
Na Igreja o povo está junto,
Faz o orador boa estreia,
Tendo o sermão por assunto
A beata Doroteia.
Em vasto exórdio se explana,
Com brilhantes frases de ouro,
Em que não há filagrana,
Tudo é maciço tesouro.
Promete mundos e fundos,
É liberal de mãos largas;
Prenhe de estudos profundos,
Deles quer fazer descargas.
Enquanto correu o exórdio,
Satisfez nosso desejo;
Mas agora o pesar morde-o,
E ele o revela com pejo.
À vista do calendário,
Diz ele com voz magoada,
Consultando o breviário,
Tive a esperança baldada.
Parece, amados ouvintes,
Que algum demônio de cauda,
Amigo de tais acintes,
Borrou-lhe mais de uma lauda!...
Da exemplar vida da Santa
Nada sei, por essa causa!...
Assim conclui, da garganta
Solta o pigarro, e faz pausa.
Se o sacro orador nos presta
A maior das bernardices,
No parlamento há, como esta,
Um milhão de parvoíces.
Silêncio! Está na tribuna
Um estadista inda jovem!
A opinião se coaduna,
E os apoiados lhe chovem!
Algum critico de sebo,
Por corrigir, talvez diga
Que um estadista mancebo
— Ferro e barro — não se liga.
Seja embora grátis dado,
Eu não aceito o conselho;
Hoje em dia homem de estado
Pode-o ser qualquer fedelho.
Perturbam-me tais respostas,
Já nem sei o que dizia!
Demos ao crítico as costas,
Tomemos à vaca fria.
Silêncio! Está na tribuna
Um estadista ainda jovem!
A opinião se coaduna,
E os apoiados lhe chovem!
No exórdio esteve excelente,
Prendeu a atenção de todos,
Honrado constantemente
Por adesões de mil modos.
Lá que houvesse muita cousa
Orelhada não sei onde
Descobrir ele não ousa,
E pelo contrário o esconde.
Mas eis que chega o momento
De entrar no âmago do assunto!
Escutemos o argumento
Que sai daquele bestunto!
“Senhor presidente, é com mágoa
Que digo o que vou dizer-vos!...”
(E um oitavo copo de água
Lhe alivia a sede e os nervos.)
“Que o governo prevarica
Fato é que não se comenta!”
(Nada, nada especifica,
Limpa o suor, e assenta.)
Eu então que por pecados
Da galeria o escutava,
Ao rebombo de apoiados
Deste modo ajuizava:
Se os nossos jovens disputam
Em as nossas assembleias,
Vazios sermões se escutam
De Beatas Doroteias.