PARECE QUE JA SE ENFASTIAVA O POETA DO SEU RETIRO COMO SE VÊ NA OBRA.
Contentamento, onde estás,
que te não acha ninguém,
se intenta buscar-te alguém,
não sabe, por onde vás.
Amigo contentamento,
peço-te por esta vez,
que não me busques, que intento
buscar-te em teu aposento,
para lançar-me a teus pés:
que não qués, e a ousadia,
ou a desserviço o hás,
para que te acha algum dia,
me digas em cortesia,
Contentamento, onde estás.
Por mil partes diferentes
andei, e te certifico
não ver-te por entre as gentes,
antes todos descontentes
alto, baixo, pobre, rico:
fui-me aos palácios e ouvi,
que se acaso ali te vêem,
sem deixar sinais de ti,
tão cedo te vais dali,
Que te não acha ninguém.
Dei logo em imaginar,
que estás entre os namorados,
busquei-te, e vendo-os queixar,
mal (disse) se podem dar
contentamento, e cuidados:
com que vendo o teu desvio
julguei, que passar além
era trabalho baldio,
e que intenta um desvario,
se intenta buscar-te alguém.
Fiquei tão desenganado,
que direi por toda a parte,
que quem por dita, ou por fado
se não vir de ti buscado,
não se canse com buscar-te:
Porque é tal tua conquista,
que inda o triste, a quem te dás,
por muito, que ele te assista,
em perdendo-te de vista,
Não sabe, por onde vás