PASSANDO DOUS FRADES FRANCISCANOS PELA PORTA DE AGUEDA PEDINDO ESMOLLA, DEO ELA ...

By Gregório de Matos Guerra

Sem tom, nem som por detrás

espirra Águeda à janela,

mas foi espirro de trela,

porque tal estrondo faz:

que um Reverendo Sagaz

lastimado, do que ouvia,

se já não foi, que sentia

ouvia tal ronco ao traseiro,

disse para o companheiro,

“irra para tua Tia”.

Sentiu-se Águeda do irra,

e disse, perdoe, Frade,

quem pede por caridade,

não se agasta com tal birra:

aqui nesta casa espirra

todo o coitado, e coitada;

passe avante, que isto é nada,

e se acaso se enfastia,

será para sua Tia,

ou para seu camarada.

Basta, que se escandaliza

do meu cu, porque se caga?

Venha cá, boca de praga,

que cousa mais mortaliza?

o peido, que penaliza,

é sorrateiro, e calado:

o peido há de ser falado,

ou ao menos estrondoso,

porque aquele, que é fanhoso,

é peido desconsolado.

Quantas vezes, Frei Remendo,

dará co meio do cu

peido tão rasgado, e cru,

que lhe fique o rabo ardendo?

perdoe, pois, Reverendo,

não cuidei, tão bem ouvia;

e se esmola me pedia,

aceite-o por caridade,

se não servir para um Frade,

leve-o para tua Tia.