PASSOU O POETA PELA PORTA DESTA DAMA, ARRIBANDO DE FORA POR CAUSA DA CHUVA, COM ...
Que não vos enganais, digo,
Betica, e antes cuidai,
que uma sátira a meu Pai
farei, se bulir comigo:
fá-la-ei ao mor amigo,
quando aleivoso me toe,
e porque melhor vos soe,
se vos pus em tanta calma,
sendo meu ídolo d’alma,
a quem quereis, que perdoe?
E se mal vos pareceu,
que eu fosse por esse posto
tão despido, e descomposto,
sem ter respeito a esse céu,
bem sabeis vós, que choveu,
e eu vinha de me embarcar:
porém entoldou-se o ar,
e para casa arribei,
com que se desagradei,
quero-me satirizar.
Betica, eu sou um magano,
um patife, um mariola,
um sátiro, um salvajola,
e mais doudo que um galhano:
de pois de ser vosso mano,
em tempo, que eu era honrado,
fui muito desaforado
em ir pela vossa rua
com barrete de falua,
e o pá de gato pingado.
Sou um sujo, e um patola,
de mau ser, má propensão,
porque se gasto o tostão,
é só com negras de Angola:
um sátiro salvajola,
a quem a universidade
não melhorou qualidade,
nem juízo melhorou,
e se acaso lá estudou,
foi loucura, e asnidade.
Sou um tonto, e um cabaça,
pois fui qual bruto indigesto,
onde os mais compõem o gesto
por cair na vossa graça:
e se então fugi da praça,
onde estão homens de porte,
bem é, que a praça me corte,
pois atento à vossa fé
devia de entender, que
onde vós estais, é corte.
Se da sátira entenderes,
que pouco pesada vai,
vós, Betica, a acrescentai,
chamando-me, o que quiseres:
quantos nomes me puseres,
todos me viram frisando,
e se enfim acrescentando
não vos parecer bastante,
mudai-os de instante a instante,
pondo-me uns, e outros tirando.