PASSOU O POETA PELA PORTA DESTA DAMA, ARRIBANDO DE FORA POR CAUSA DA CHUVA, COM HUM CASACÃO, E HUA CARAPUÇA. E ELLA LHE DICE, QUE SE FORA POETA, COMO ELLE, O HAVIA DE SATYRIZAR PELO DESCOCO: AO QUE ELLE FEZ ESTAS DÉCIMAS.

By Gregório de Matos Guerra

Que não vos enganais, digo,

Betica, e antes cuidai,

que uma sátira a meu Pai

farei, se bulir comigo:

fá-la-ei ao mor amigo,

quando aleivoso me toe,

e porque melhor vos soe,

se vos pus em tanta calma,

sendo meu ídolo d’alma,

a quem quereis, que perdoe?

E se mal vos pareceu,

que eu fosse por esse posto

tão despido, e descomposto,

sem ter respeito a esse céu,

bem sabeis vós, que choveu,

e eu vinha de me embarcar:

porém entoldou-se o ar,

e para casa arribei,

com que se desagradei,

quero-me satirizar.

Betica, eu sou um magano,

um patife, um mariola,

um sátiro, um salvajola,

e mais doudo que um galhano:

de pois de ser vosso mano,

em tempo, que eu era honrado,

fui muito desaforado

em ir pela vossa rua

com barrete de falua,

e o pá de gato pingado.

Sou um sujo, e um patola,

de mau ser, má propensão,

porque se gasto o tostão,

é só com negras de Angola:

um sátiro salvajola,

a quem a universidade

não melhorou qualidade,

nem juízo melhorou,

e se acaso lá estudou,

foi loucura, e asnidade.

Sou um tonto, e um cabaça,

pois fui qual bruto indigesto,

onde os mais compõem o gesto

por cair na vossa graça:

e se então fugi da praça,

onde estão homens de porte,

bem é, que a praça me corte,

pois atento à vossa fé

devia de entender, que

onde vós estais, é corte.

Se da sátira entenderes,

que pouco pesada vai,

vós, Betica, a acrescentai,

chamando-me, o que quiseres:

quantos nomes me puseres,

todos me viram frisando,

e se enfim acrescentando

não vos parecer bastante,

mudai-os de instante a instante,

pondo-me uns, e outros tirando.