PEDE O POETA ZELOS A THEREZA, E ELLA LHE RESPONDEO, QUE SERIA DAS ESCOLLAS DO AM...

By Gregório de Matos Guerra

Os zelos, minha Teresa,

não sabe entender ninguém,

quem os não tem, esse os dá,

e pede-os, quem os não quer.

Eu chego a pedir-vos zelos,

e não quero, que mos deis,

mas vós mos dais, e os não tendes,

quem zelos há de entender?

Pela razão natural

ninguém dá, o que não tem,

e pela mesma razão

ninguém pede, o que não quer.

E assim enleia o juízo,

que os não tenhais, e mos deis,

que eu, que os peço, os não quisera,

que é pedir, e não querer.

E suposta esta advertência,

vos peço, Teresa, que,

quando zelos vos pedir,

mais que os peça, mos não deis.

Porque eu peço, o que não quero,

e este pedir, é querer,

não que vós mos concedais,

senão sim que mos negueis.

Como amor é entendimento,

e como amar é entender,

vós como amante entendida,

vós, que como amais, sabeis.

Deveis das minhas palavras

tomar discreta, e cortês

não aquilo, que elas dizem,

mas o que querem dizer.

Não entendais, que vos peço

ciúmes, pelos querer,

antes sim pelos deixar

vos peço uma, e outra vez.

Pedir zelos é queixar-me,

e se eu amante, e fiel,

com finezas vos enfado,

com queixas que vos farei?

Teresa eu não peço zelos,

que quem tão mofino é,

que fino vos desagrada,

triste que há de parecer?

A beleza, que se adora,

tão privilegiada é,

que se há de mister licença

para sentir seus desdéns.