PENDIDO-SE AO AUTOR UMA GLOSA

By Nicolau Tolentino de Almeida

Menino, dizer finezas,

Só o próprio pretendente;

Amor não pôde imitar-se,

Só o pinta quem o sente:

Se adora alguma Nerina,

Se é para ela a tal glosa,

Que vão fazer os meus versos,

Onde está a sua prosa?

Além d’ isso, essa figura,

Faces tenras, e coradas.

Falam mais discretamente.

Que mil cantigas glosadas;

Lenço nas pontas bordado.

Cipó, tísicas fivelas.

Sobre um corpo assim talhado,

Se eu gosto, que farão elas?

Versos são mui fracas armas

Para vencer corações,

É clara a letra redonda,

Leia a vida de Camões:

Sua divina poesia

Teve mui curtos poderes;

Trataram-no mal os homens,

E inda pior as mulheres:

Pois entra de amor na estrada,

Siga n’ela outro farol;

Embuce-se a uma esquina,

Sofra chuva, sofra sol:

Erga ali o altar do amor;

Queimo ali humilde incenso;

Suba ao alto do capote

Branco, alcoviteiro lenço:

Que importa que os sapateiros

Deem assobio insultante,

Se os negócios vão marchando

Com passadas de gigante?

Cem vezes na mesma tarde

Pize esbelto a feliz rua;

Alheias cadeias de aço,

Relógio de holanda crua:

Vá por aqui, que por versos

Dá em vão loucas passadas;

São divertimento inútil,

São as histórias das fadas:

Inda que para cantá-los

Lhe desse Garção a lira.

Como hão de crer-lhe verdades

Na linguagem da mentira?

Seja acérrimo chorão;

Pranto entendem raparigas;

Faça em lágrimas seu fundo,

E não o faça em cantigas:

Palêe co’estes remédios,

Pois não tem o verdadeiro;

É ele (aqui em segredo)

O milagroso dinheiro:

Mas se teima em pedir versos,

E conselhos não suporta,

Então perdoe, meu menino,

Pode bater a outra porta.