PERGUNTA CERTA SENHORA, SEM PRESUMIR MAL ALGUM, SE UM SÓ BEIJO À SEXTA-FEIRA FAR...
“Padre mestre Apresentado,
Pergunto, e saber desejo,
Se perde o jejum um beijo.
Sendo à sexta feira dado?”
“Eu, no Larraga encontrado
Não tenho o caso atégora;
Por isso alguma demora...”
“Não, não, não se canse muito.
Que eu cá por mim não pergunto.
Pergunta certa senhora.”
“Olhe, se ela o beijo deu
Simpliciter, não pecou.
Que a lei a ninguém tirou
Poder dar o que for seu;
Contudo se fora eu.
Beijo não dera nenhum;
Porém como deu só um.
Não tem o jejum quebrado,
E muito mais sendo dado.
Sem presumir mal algum.”
“Porém seu mestre Melgaço,
Que eu por cá seguido vejo,
Nos diz que o solido beijo
Sustenta mais, que o abraço:”
“Eu tal distinção não faço.
Nem distinção verdadeira
Acho, inda que dar-lh’a queira;
Nem eu sei qual mais seria.
Se um abraço em qualquer dia,
Se um só beijo à sexta feira.
“Logo pode um beijo dar
Muito bem à sexta feira
Qualquer secular, ou fieira.
Sem nisso o jejum quebrar?”
“Pode sim; mas sem formar
Nesse instante gosto algum;
Nem ha de dar mais do que um,
Pois se deu mais, ou fez gosto,
Como o beijo é já composto,
Fará perder o jejum.”