PERTENDIA O POETA RETIRAR-SE PARA A VILLA DE S. FRANCISCO E VENDO AS DUREZAS DE CATONA, LHE FAZ ESTE MEMORIAL DE FINEZAS.

By Gregório de Matos Guerra

Não vos pude merecer,

porque não pude agradar,

mas eu hei de me vingar,

Catona, em mais vos querer;

vós sempre a me aborrecer

com ódio mortal, e atroz,

e eu a seguir-vos veloz:

se sois veremos enfim

mais firme em fugir-me a mim,

que eu em seguir-vos a vós.

Quisera-vos persuadir,

como vós haveis de haver,

que sou mais firme em querer,

que vós ligeira em fugir:

eu não hei de desistir

desta minha pertensão,

quer vós a aproveis, quer não,

porque ver-me importaria,

se talvez faz a porfia,

o que não faz a razão.

Mil vezes o tempo faz,

o que à razão não conveio,

meterei o tempo em meio,

porque ele nos meta em paz:

vós estais muito tenaz

em dar-me um, e outro não,

e eu levado da afeição

espero tempo melhor,

onde, o que não obra amor,

vença o tempo, obre a razão.

Catona, minha esperança

me dá por consolação,

que espere: porque o rifão

diz, que, quem espera, alcança:

tudo tem certa mudança:

o bem males ameaça,

o mal para bem se passa,

que como a fortuna joga,

o braço, que hoje me afoga,

talvez que amanhã me abraça.