PHILOSOPHIA, E RHETORICA DIZ AQUI O POETA, QUE LEO, E COMO RHETORICAMENTE PHILOS...
Que todo o bem se faria
dissestes, falsa Tetê,
o todo eu o perdoara,
basta-me parte do bem.
Quem não merece o bem todo,
com parte se satisfaz,
todo o bem, ou parte dele,
pouco, ou muito é mesmo bem.
Na boa filosofia,
e na retórica sei,
e li, que entre pouco, e muito
jamais distinção se fez
Pouco mal, e muito mal
o mesmo mal vem a ser,
com que o mesmo bem será
pouco bem, e muito bem.
Distingue-se em quantidade,
não na espécie, nem no ser,
na substância é sempre o mesmo,
se em quantidade não é.
Basta ser da vossa mão,
para ser mui grande bem,
se é pouco, estima-se muito,
e em muito, se muito é.
Com pouco um pobre se alegra,
e quem tão pobre se vê,
Tetê, dos vossos favores,
se alegrará com qualquer.
Mas vós sois uma traidora,
falsa, fingida, infiel,
aleivosa, e fementida,
sobretudo sois mulher.
Prometeis mui largamente,
no dar vos arrependeis,
como se fora pecado
o dar sobre o prometer.
O arrepender é virtude,
mas se acaso o arrepender
é de dar o prometido,
vício, e vilania é.
Mas isso é para os ditosos;
isso é para aqueles, que
vos enganam com embustes,
coisa, que eu não sei fazer.
Praza a Amor, Tetê ingrata,
que tanto embuste encontreis,
que vos lembrem as verdades,
que enjeitais em minha fé.
Praza a Amor, que os desenganos
vos cheguem a estado, que
me vingue em vossos pesares
de vossos termos cruéis.
A Deus, Tetê, que eu me vou
para Sergipe d’El-Rei,
a viver de me ausentar,
e a morrer de vos não ver.