PHILOSOPHIA, E RHETORICA DIZ AQUI O POETA, QUE LEO, E COMO RHETORICAMENTE PHILOS...

By Gregório de Matos Guerra

Que todo o bem se faria

dissestes, falsa Tetê,

o todo eu o perdoara,

basta-me parte do bem.

Quem não merece o bem todo,

com parte se satisfaz,

todo o bem, ou parte dele,

pouco, ou muito é mesmo bem.

Na boa filosofia,

e na retórica sei,

e li, que entre pouco, e muito

jamais distinção se fez

Pouco mal, e muito mal

o mesmo mal vem a ser,

com que o mesmo bem será

pouco bem, e muito bem.

Distingue-se em quantidade,

não na espécie, nem no ser,

na substância é sempre o mesmo,

se em quantidade não é.

Basta ser da vossa mão,

para ser mui grande bem,

se é pouco, estima-se muito,

e em muito, se muito é.

Com pouco um pobre se alegra,

e quem tão pobre se vê,

Tetê, dos vossos favores,

se alegrará com qualquer.

Mas vós sois uma traidora,

falsa, fingida, infiel,

aleivosa, e fementida,

sobretudo sois mulher.

Prometeis mui largamente,

no dar vos arrependeis,

como se fora pecado

o dar sobre o prometer.

O arrepender é virtude,

mas se acaso o arrepender

é de dar o prometido,

vício, e vilania é.

Mas isso é para os ditosos;

isso é para aqueles, que

vos enganam com embustes,

coisa, que eu não sei fazer.

Praza a Amor, Tetê ingrata,

que tanto embuste encontreis,

que vos lembrem as verdades,

que enjeitais em minha fé.

Praza a Amor, que os desenganos

vos cheguem a estado, que

me vingue em vossos pesares

de vossos termos cruéis.

A Deus, Tetê, que eu me vou

para Sergipe d’El-Rei,

a viver de me ausentar,

e a morrer de vos não ver.