PINTA O POETA AS PORQUEYRAS DE HUM FRADE, E SEUS DEPRAVADOS MODOS EM MATERIAS AM...
A vós digo, Putinhas franciscanas,
Convosco falo, manas,
Ouvi pacito, e respondei-me quedo,
Que quero me digais certo segredo;
Por que com Frades vos dormis aos pares,
E tendes ódio aos membros seculares?
Não sois vós outras lâminas de prata,
Que na oficina grata,
Em que o seu malho o senhor Pai batia,
Saístes animada argentaria?
Pois como em tais diáfanos argentos
Engastais tantos membros fedorentos?
Era qualquer de vós prata sem liga,
E hoje, não sei, se diga,
Liga fazeis co chumbo vil de um Frade,
Que dá com chumbo, e faz a caridade;
Ó infaustas moças na mofina raras,
Que fazem tais baratos de tais caras!
Que esperais, que vos dê, ou vos proveja
Um magano da Igreja,
O lixo eclesiástico do mundo,
Que é senão um Franciscano imundo,
De cujas bragas nos avisa o cheiro,
Que ali o cepo vem do Pasteleiro.
O Frade porqueirão esfamiado
Apenas tem entrado,
Quando sem mais razão, nem mais palavra
Pega, arregaça, emboca, e escalavra:
Não gasta a voz, não se detém, nem pode,
Arremete, cavalga, impinge, e fode.
O secular, que é todo almiscarado,
Já do amor obrigado
Faz à Dama um poema em um bilhete,
Cobarde o faz, tímido o remete;
Se lhe responde branda, alegre o gosta,
E se tirana, estima-lhe a resposta.
Vai no outro dia passear à Dama,
Por quem amor o inflama,
E sendo o intento ver a Dama bela,
Passa-lhe a rua, e não lhe vê à janela,
Que está primeiro em um galã composto,
O crédito da Dama, que o seu gosto.
Depois de muitos anos de suspiros,
De desdéns, de retiros,
Desprezos, desapegos, desenganos,
Constâncias de Jacob, serviço de anos
Fazem, com que da Dama idolatrada
Lhe vem recado, em que lhe dá entrada.
Com tal recado alvoroçado o Moço
Quer morrer de alvorogo,
E entregue todo ao súbito desvelo
Enfeita a cara bem, penteia o pêlo,
Galante em cheiros, e em vestir flamante
Parece um cravo de arrochela andante.
À rua sai, e junto ao aposento
Do adorado portento,
Onde cuidou gozar da Dama bela,
Se lhe manda fazer pé de janela;
Aceita-o ele, e livre do desmaio
De amorosos conceitos faz ensaio.
Querido Ídolo meu, Prenda adorada
(Lhe diz com voz turbada)
Se para um longo amor é curta a vida,
Meu amor vos escusa de homicida;
De que serve matar-me rigorosa,
Quem tantas setas tira de formosa?
Dai-me essa bela mão, Ninfa prestante,
E nesse rutilante
Ouro em madeixas de cabelo undoso
Prendei o vosso escravo, o vosso esposo;
Não peço muito não, e se o peço,
Amor, minha senhora, é todo excesso.
É modo Amor, que nunca teve modo,
Amor é excesso todo,
E nessa mão de neve transparente
Pouco pede, quem ama firmemente:
Dai-me por mais fineza, que os favores
São leite, e alimento dos amores.
Responde-lhe ela com um brando riso,
E no mesmo improviso
Ai (lhe diz) que acordou meu Pai agora,
Amanhã nos veremos, ide embora;
Fecha a janela, e o Moço mudo, e quedo
Fica sobre um penedo, outro penedo.
Fará isto um Fradinho Franciscano?
Fará isto um magano,
Que em casos tais quer ir com tudo ao cabo,
E fede ao budum como o diabo?
Um Frade porqueirão, e esfamiado
Não fia nos primores tão delgado.
Pois, Putas sujas, desaventuradas,
Que não vedes a grande diferença,
Que vai de uma fodença a outra fodença?
Ora em castigo igual a tais maldades
Praza o Amor, que vos fodam sempre Frades.