PINTA O POETA AS PORQUEYRAS DE HUM FRADE, E SEUS DEPRAVADOS MODOS EM MATERIAS AM...

By Gregório de Matos Guerra

A vós digo, Putinhas franciscanas,

Convosco falo, manas,

Ouvi pacito, e respondei-me quedo,

Que quero me digais certo segredo;

Por que com Frades vos dormis aos pares,

E tendes ódio aos membros seculares?

Não sois vós outras lâminas de prata,

Que na oficina grata,

Em que o seu malho o senhor Pai batia,

Saístes animada argentaria?

Pois como em tais diáfanos argentos

Engastais tantos membros fedorentos?

Era qualquer de vós prata sem liga,

E hoje, não sei, se diga,

Liga fazeis co chumbo vil de um Frade,

Que dá com chumbo, e faz a caridade;

Ó infaustas moças na mofina raras,

Que fazem tais baratos de tais caras!

Que esperais, que vos dê, ou vos proveja

Um magano da Igreja,

O lixo eclesiástico do mundo,

Que é senão um Franciscano imundo,

De cujas bragas nos avisa o cheiro,

Que ali o cepo vem do Pasteleiro.

O Frade porqueirão esfamiado

Apenas tem entrado,

Quando sem mais razão, nem mais palavra

Pega, arregaça, emboca, e escalavra:

Não gasta a voz, não se detém, nem pode,

Arremete, cavalga, impinge, e fode.

O secular, que é todo almiscarado,

Já do amor obrigado

Faz à Dama um poema em um bilhete,

Cobarde o faz, tímido o remete;

Se lhe responde branda, alegre o gosta,

E se tirana, estima-lhe a resposta.

Vai no outro dia passear à Dama,

Por quem amor o inflama,

E sendo o intento ver a Dama bela,

Passa-lhe a rua, e não lhe vê à janela,

Que está primeiro em um galã composto,

O crédito da Dama, que o seu gosto.

Depois de muitos anos de suspiros,

De desdéns, de retiros,

Desprezos, desapegos, desenganos,

Constâncias de Jacob, serviço de anos

Fazem, com que da Dama idolatrada

Lhe vem recado, em que lhe dá entrada.

Com tal recado alvoroçado o Moço

Quer morrer de alvorogo,

E entregue todo ao súbito desvelo

Enfeita a cara bem, penteia o pêlo,

Galante em cheiros, e em vestir flamante

Parece um cravo de arrochela andante.

À rua sai, e junto ao aposento

Do adorado portento,

Onde cuidou gozar da Dama bela,

Se lhe manda fazer pé de janela;

Aceita-o ele, e livre do desmaio

De amorosos conceitos faz ensaio.

Querido Ídolo meu, Prenda adorada

(Lhe diz com voz turbada)

Se para um longo amor é curta a vida,

Meu amor vos escusa de homicida;

De que serve matar-me rigorosa,

Quem tantas setas tira de formosa?

Dai-me essa bela mão, Ninfa prestante,

E nesse rutilante

Ouro em madeixas de cabelo undoso

Prendei o vosso escravo, o vosso esposo;

Não peço muito não, e se o peço,

Amor, minha senhora, é todo excesso.

É modo Amor, que nunca teve modo,

Amor é excesso todo,

E nessa mão de neve transparente

Pouco pede, quem ama firmemente:

Dai-me por mais fineza, que os favores

São leite, e alimento dos amores.

Responde-lhe ela com um brando riso,

E no mesmo improviso

Ai (lhe diz) que acordou meu Pai agora,

Amanhã nos veremos, ide embora;

Fecha a janela, e o Moço mudo, e quedo

Fica sobre um penedo, outro penedo.

Fará isto um Fradinho Franciscano?

Fará isto um magano,

Que em casos tais quer ir com tudo ao cabo,

E fede ao budum como o diabo?

Um Frade porqueirão, e esfamiado

Não fia nos primores tão delgado.

Pois, Putas sujas, desaventuradas,

Que não vedes a grande diferença,

Que vai de uma fodença a outra fodença?

Ora em castigo igual a tais maldades

Praza o Amor, que vos fodam sempre Frades.