PINTA O POETA ENTRE AMOROSOS ACCIDENTES O GARBO DE THEREZA EM OCCASIÃO, QUE LHE ...

By Gregório de Matos Guerra

Por esta rua Teresa,

e co lencinho na trunsa,

apostarei, que são mortos

os meus vizinhos da rua.

Apostarei, que passando

de Teresa a formosura,

não viu pessoa, que então

não ficasse moribunda.

Apostarei, que pediam

confissão por essas ruas,

once ela empregava os olhos

por portas, e por adufas.

Deus a Teresa perdoe,

e a demais gente defunta,

a Teresa os seus delitos,

aos demais as suas culpas.

Porque se ela não passava

airosa, galharda, e pulcra,

como garbo de mais da marca,

que é pior, que espada nua:

Não morreram meus vizinhos

de tão suave olhadura,

que era uma peste agradável

de lisonjeiras angústias.

E porque se meus vizinhos

quando ela dos olhos puxa,

cada qual fugira então

do perigo, a que se expunha:

Se fugiram das janelas,

se fecharam as adufas,

não foram mortos agora

de ver Teresa na rua.

De nenhum eu me lastimo,

antes tenho inveja suma,

de que de tal morte morram

tão incapazes criaturas.

Eu só quisera morrer

por Teresa, e é injúria,

que todos morram, e eu só

por seu amor me consuma.

Que eu morra, porque me mata

desdenhosa, ingrata, e dura,

passe, que é morte discreta,

passe, que a causa o desculpa.

Mas que morra a vizinhança

não mais de porque ela punha

os olhos, quando passava

pela gentinha da rua!

É mui grande atrevimento,

é desaforo, é injúria,

que se faz a uma beleza

tão soberana, e tão culta.

Eu não lhe posso sofrer,

nem hei de sofrê-lo nunca,

porque não é para todos

morrer de uma formosura.