PINTA O POETA ENTRE AMOROSOS ACCIDENTES O GARBO DE THEREZA EM OCCASIÃO, QUE LHE PASSOU PELA RUA.
Por esta rua Teresa,
e co lencinho na trunsa,
apostarei, que são mortos
os meus vizinhos da rua.
Apostarei, que passando
de Teresa a formosura,
não viu pessoa, que então
não ficasse moribunda.
Apostarei, que pediam
confissão por essas ruas,
once ela empregava os olhos
por portas, e por adufas.
Deus a Teresa perdoe,
e a demais gente defunta,
a Teresa os seus delitos,
aos demais as suas culpas.
Porque se ela não passava
airosa, galharda, e pulcra,
como garbo de mais da marca,
que é pior, que espada nua:
Não morreram meus vizinhos
de tão suave olhadura,
que era uma peste agradável
de lisonjeiras angústias.
E porque se meus vizinhos
quando ela dos olhos puxa,
cada qual fugira então
do perigo, a que se expunha:
Se fugiram das janelas,
se fecharam as adufas,
não foram mortos agora
de ver Teresa na rua.
De nenhum eu me lastimo,
antes tenho inveja suma,
de que de tal morte morram
tão incapazes criaturas.
Eu só quisera morrer
por Teresa, e é injúria,
que todos morram, e eu só
por seu amor me consuma.
Que eu morra, porque me mata
desdenhosa, ingrata, e dura,
passe, que é morte discreta,
passe, que a causa o desculpa.
Mas que morra a vizinhança
não mais de porque ela punha
os olhos, quando passava
pela gentinha da rua!
É mui grande atrevimento,
é desaforo, é injúria,
que se faz a uma beleza
tão soberana, e tão culta.
Eu não lhe posso sofrer,
nem hei de sofrê-lo nunca,
porque não é para todos
morrer de uma formosura.