PINTURA GRACIOSA DE HUMA DAMA CORCOVADA.

By Gregório de Matos Guerra

Laura minha, o vosso amante

não sabe, por mais que faz,

quando ides para trás,

nem quando para diante:

olha-vos para o semblante,

e vê no peito a cacunda,

é força, que se confunda,

pois olha para o espinhaço,

e vendo segundo inchaço,

o tem por cara segunda.

Com duas corcovas postas,

que amante não duvidara,

se tendes costas na cara,

se trazeis a cara às costas:

quem fizer sobre isso apostas,

não é de as ganhar capaz,

que a vista mais perspicaz

nunca entre as confusas ramas

vê, se as pás trazeis nas mamas,

se as mamas trazeis nas pás.

Entre os demais serafins,

que há ali de belezas raras,

só vós tendes duas caras,

e ambas elas mui ruins:

quem vos for buscar os rins,

que moram atrás do peito,

nunca os há de achar a jeito,

crendo, que adiante estão,

com que sois mulher, que não

tem avesso, nem direito.

Vindo para mim andando,

cuido (como é cousa nova

trazer no peito a corcova)

que vos ides ausentando:

cuido (estando-vos olhando

no peito o corcoz tremendo)

que às costas vos estou vendo:

e porque vos vejo assim

vir co’a giba para mim,

que as costas me dais, entendo.

A vossa corcova rara

deixe o peito livre, e cru,

ou crerei, que é vosso cu

parecido à vossa cara:

e se acaso vos enfara

dar-vos por tão verdadeira

esta semelhante asneira,

por mais que vos descontente,

hei de crer, que é vossa frente

irmã da vossa traseira.

Um bem tem vosso aleijão

mui útil, a quem vos ama,

e é, que haveis de dar na cama

mais voltas do que um pião:

se o pião de um só ferrão

voltando em giros continos

dá gostos tam peregrinos,

vós pião de dois ferrões

sereis sem comparações

desenfado dos meninos.