PINTURA GRACIOSA DE HUMA DAMA CORCOVADA.
Laura minha, o vosso amante
não sabe, por mais que faz,
quando ides para trás,
nem quando para diante:
olha-vos para o semblante,
e vê no peito a cacunda,
é força, que se confunda,
pois olha para o espinhaço,
e vendo segundo inchaço,
o tem por cara segunda.
Com duas corcovas postas,
que amante não duvidara,
se tendes costas na cara,
se trazeis a cara às costas:
quem fizer sobre isso apostas,
não é de as ganhar capaz,
que a vista mais perspicaz
nunca entre as confusas ramas
vê, se as pás trazeis nas mamas,
se as mamas trazeis nas pás.
Entre os demais serafins,
que há ali de belezas raras,
só vós tendes duas caras,
e ambas elas mui ruins:
quem vos for buscar os rins,
que moram atrás do peito,
nunca os há de achar a jeito,
crendo, que adiante estão,
com que sois mulher, que não
tem avesso, nem direito.
Vindo para mim andando,
cuido (como é cousa nova
trazer no peito a corcova)
que vos ides ausentando:
cuido (estando-vos olhando
no peito o corcoz tremendo)
que às costas vos estou vendo:
e porque vos vejo assim
vir co’a giba para mim,
que as costas me dais, entendo.
A vossa corcova rara
deixe o peito livre, e cru,
ou crerei, que é vosso cu
parecido à vossa cara:
e se acaso vos enfara
dar-vos por tão verdadeira
esta semelhante asneira,
por mais que vos descontente,
hei de crer, que é vossa frente
irmã da vossa traseira.
Um bem tem vosso aleijão
mui útil, a quem vos ama,
e é, que haveis de dar na cama
mais voltas do que um pião:
se o pião de um só ferrão
voltando em giros continos
dá gostos tam peregrinos,
vós pião de dois ferrões
sereis sem comparações
desenfado dos meninos.