POEMA
Sob o régio dossel do heleno firmamento,
Donde os Titãs revéis foram precipitados,
Homero, a lira à mão, celebra o valimento
Dos argivos heróis por Palas aureolados:
— Canta os feitos de Ajax e Ulisses, a bravura
De Aquiles, o esplendor marcial e a formosura
Da deusa belatriz de graça peregrina
Que brande contra Ílion o gládio que fulmina...
Com dois versos conduz o plaustro da vitória!
E cores, luz e sons o semideus combina
Para alcançar o beijo olímpico da Glória!
Paganini dedilha o quérulo instrumento...
Uma nota suspira e evola-se... Abafados,
Vão subindo primeiro os sons num choro lento,
Como um flébil planger de corações magoados!
Dir-se-ia que o violino uma oração murmura
Para depois clamar! A humana desventura
Acorda, soluçando em tremula surdina,
E logo sangra numa angustia repentina,
Que esmaece e desmaia em queixa merencória...
É uma alma que se entrega à febre que a domina
Para alcançar o beijo olímpico da Glória!
Sânzio, mudo, a cismar, num embevecimento,
Deixa o espírito alar-se a mundos encantados:
E no radiante céu do seu deslumbramento
Brilham sideralmente uns olhos adorados!
E, no enlevo feliz, traça, com mão segura,
Tênues linhas de luz, e em breve, na brancura
Da tela, resplandece, assim como a imagina,
Num halo de turquesa, a loira Fornarina
Que lhe enche de perfume a vida transitória,
E em cujo seio busca inspiração divina
Para alcançar o beijo olímpico da Glória!
Fídias contempla o alvor do Paros um momento,
E rasga-o: — e logo vão surgindo, arredondados,
Contornos feminis de um claro polimento,
Da venusta feição dos mármores sagrados.
Saltam lascas do bloco, estala a pedra dura:
— Um par de seios mostra a rara cinzelura,
Das curvas de Afrodite o encanto predomina,
E as pernas do brancor ondeante da neblina
Sustêm do torso grego a perfeição marmórea
Com que o gênio imortal as gerações fascina,
Para alcançar o beijo olímpico da Glória!
Ardem os camafeus num vivo irisamento.
Pelas pátenas d’oiro e hostiários rendilhados
Fulge a safira azul, chispa o rubim sangrento,
Entre o glauco esplendor dos prásios abrasados...
Cellini, com ardor, faceta opalas, fura
Caros metais, e crava o sol em miniatura
De um berilo oriental numa custódia fina.
De um carvão desengasta a estrela matutina...
Assim, com gemas abre um sulco astral na história,
Manejando o buril de ponta adamantina
Para alcançar o beijo olímpico da Glória!