POEMA

By Gustavo de Paula Teixeira

Sob o régio dossel do heleno firmamento,

Donde os Titãs revéis foram precipitados,

Homero, a lira à mão, celebra o valimento

Dos argivos heróis por Palas aureolados:

— Canta os feitos de Ajax e Ulisses, a bravura

De Aquiles, o esplendor marcial e a formosura

Da deusa belatriz de graça peregrina

Que brande contra Ílion o gládio que fulmina...

Com dois versos conduz o plaustro da vitória!

E cores, luz e sons o semideus combina

Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

Paganini dedilha o quérulo instrumento...

Uma nota suspira e evola-se... Abafados,

Vão subindo primeiro os sons num choro lento,

Como um flébil planger de corações magoados!

Dir-se-ia que o violino uma oração murmura

Para depois clamar! A humana desventura

Acorda, soluçando em tremula surdina,

E logo sangra numa angustia repentina,

Que esmaece e desmaia em queixa merencória...

É uma alma que se entrega à febre que a domina

Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

Sânzio, mudo, a cismar, num embevecimento,

Deixa o espírito alar-se a mundos encantados:

E no radiante céu do seu deslumbramento

Brilham sideralmente uns olhos adorados!

E, no enlevo feliz, traça, com mão segura,

Tênues linhas de luz, e em breve, na brancura

Da tela, resplandece, assim como a imagina,

Num halo de turquesa, a loira Fornarina

Que lhe enche de perfume a vida transitória,

E em cujo seio busca inspiração divina

Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

Fídias contempla o alvor do Paros um momento,

E rasga-o: — e logo vão surgindo, arredondados,

Contornos feminis de um claro polimento,

Da venusta feição dos mármores sagrados.

Saltam lascas do bloco, estala a pedra dura:

— Um par de seios mostra a rara cinzelura,

Das curvas de Afrodite o encanto predomina,

E as pernas do brancor ondeante da neblina

Sustêm do torso grego a perfeição marmórea

Com que o gênio imortal as gerações fascina,

Para alcançar o beijo olímpico da Glória!

Ardem os camafeus num vivo irisamento.

Pelas pátenas d’oiro e hostiários rendilhados

Fulge a safira azul, chispa o rubim sangrento,

Entre o glauco esplendor dos prásios abrasados...

Cellini, com ardor, faceta opalas, fura

Caros metais, e crava o sol em miniatura

De um berilo oriental numa custódia fina.

De um carvão desengasta a estrela matutina...

Assim, com gemas abre um sulco astral na história,

Manejando o buril de ponta adamantina

Para alcançar o beijo olímpico da Glória!